Medianeiras

medDa janela consigo ver todas aquelas caixinhas de luzes que são os apartamentos à frente. Eles sempre estiveram ali, me vigiando enquanto escrevo, me censurando quando rego demais e afogo o alecrim, me consolando nas horas que espero meu amigo que está sempre atrasado para nossos compromissos sem hora. Mas hoje, escrevo pra eles, e não sob suas vistas.

A velhinha que passa roupa todas as noites, mas nunca sai de casa. O rapaz engraçado que tem uma barra de poledance no meio da sala, mas às vezes chora lendo suas mensagens no telefone sentado no chão. Logo acima, o casal de fumantes que passa longas horas em silêncio, lado a lado: o mais velho, o menos velho e o fim. No último andar do prédio branco, a moça me olha com seus binóculos. Eu não me importo. Acho até que me faz companhia. Seu olhar invasivo de qualquer forma é interesse por mim.

A ruiva que veste quatro roupas diferentes antes de sair com a primeira opção; o gato que se esfrega na vidraça sobre o sofá; o viciado em pornografia que adora flores. Logo abaixo, o rapaz insone que vê TV todas as madrugadas. Às vezes, quando vou à cozinha tomar algo, ele também está na dele bebendo sua coca em garrafa de vidro. A mulher que adora a chuva e ensina seu valor para os dois filhos que cria sozinha; a menininha que dança engraçado na janela quando os pais vão para a cozinha; a moça que pinta seus quadros e eu passei a chamar de Ângela porque acho que combina.

Se você está lendo agora, acene pra mim. Vamos afrontar a avenida, insultar as distâncias, acene pra mim. Tudo bem, há mesmo o risco de você acenar, e de que não seja eu, de que não seja ninguém, de que parece bobo. Mas há também o risco de alguém nas caixinhas da frente responder, há o risco de alguém que mora na caixinha pequena da frente ser o presente que você sempre pediu. Todas as pessoas do mundo estão sozinhas esperando por um aceno seu.

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Dois

CIRCUS2Dois corações. Um que segue e um que espera. Um faminto e outro sonolento, quem vencerá a guerra? Um que vigia, outro que irrompe. Um crê e o outro mente. Um mergulha e o seguinte hesita. Quem se consome é um deles. Quem se guarda, também. Quem vencerá a briga?

Dois. Um é par, o outro ímpar. Um é fé, o outro, dúvida. Enquanto um cala o outro escuta, para calar logo em seguida. Dois desencontros, dois pesos, duas medidas. Um busca e o outro se esconde, um ama e, o outro, teme. Um indo, outro voltando, e no meio do caminho, os dois se encontram. Logo no oposto do caminho que é do outro. Quem desembaraçará a trama?

Nós não sabemos fazer isso direito – repete o do lado direito. E o outro, inconformado com suas incapacidades, se enche de cálculos numéricos exatos, de técnicas antigas engenheiras, mas não encontra também jeito, por que um marca os segundos e o outro é lento como as horas lerdas. E ainda que se caibam, se encaixem, se encontrem, não é da natureza deles permanecer juntos.

E teimam, e teimam e queimam, como queimam todos os amantes. E lutam como se estivessem para demolir toda uma Buenos Aires, mas é amor, é amor o nome do meio da luta deles. Dois ímpares, dois díspares. Assim anunciava o folheto, aliciando para a próxima sessão das sete. Venham ver! Venham ver! A incrível mulher que carrega dois corações em seu peito.

 

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Desconhecidos

ANTIGAS 06 OKMuito prazer, eu sou alguém que você não conhece. Entre duas palavras inofensivas de boas-vindas, talvez não caibam todos os medos que carreguei pela vida, todos os sonhos que guardei através dos anos, todo o amor que encontrei pelo caminho. Muito prazer, já no princípio é preciso dizer que talvez eu seja mesmo uma rota inconclusiva, uma estrada que só vai, sem nunca chegar.

Muito prazer. E se você soubesse que todas as minhas manias também são recados do passado? E se eu te contasse que eu posso ser brusco me defendendo de terrores que ainda nem são reais? Você fugiria? Mudaria as calçadas retas que escrevem por linhas tortas? Você me julgaria, por ter mais certeza da existência das minhas dúvidas, que da longevidade dos meus sentimentos?

Muito prazer. Sou eu, um admirador das horas mais vazias, dos dias mais cinzas. Prefiro o mar das cobertas, leio bem menos que gostaria, não sei nenhuma receita de cor, tenho uma agenda que se alastra entre nomes para proteger meus únicos dois bons amigos. Muito prazer, eu sinto melhor os gostos quando fecho os meus olhos, eu sinto saudades de lugares em que nunca vivi. Assim, também sinto sua falta.

Eu sou o seu admirador secreto inverso. Somos fantasmas um do outro. Somos um tempo que há de sumir, uma vontade que há de ceder, somos o pouso que não descansa, repouso das lembranças, somos distâncias que aumentam enquanto se aproximam. Muito prazer, sou alguém que você já amou e hoje você prefere desconhecer.

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Reencontro

reencontrarPasse quanto tempo passe, aconteçam quantas mudanças aconteçam ao centro de nossas órbitas: reencontrar um olhar cúmplice, um cheiro conhecido, um abraço despreocupado é sempre reencontrar-se. Se pessoas são lugares, encontros são estradas. Reencontrar é pôr-se em trânsito, na ânsia das chegadas, no ímpeto das partidas. Reencontrar é colocar a alma para viajar como um carro antigo que volta às curvas de uma estrada conhecida, sem pressa.

A dádiva do reencontro fica mais clara, é claro, sobre as costas largas do tempo que se espreguiça, ainda que também seja possível reencontrar quem se vê todo dia. Reencontrar com a mesma doçura quem se viu antes dos sonhos, quem se reencontra na régua tórrida dos dias, no empilhar quase metódico das horas, quem a gente sempre tem à mão para dividir nossas banalidades mais simplórias. Penso até que amar é reencontrar alguém todo santo dia.

Reencontrar um olhar que descansa, um afago que toca, uma música que remete, um assunto que se continua após anos e anos como se só tivesse esperado a fervura do café. Alguém que traz consigo um tempo em que o tempo parecia ser mais distraído, alguém que nos devolve a firmeza da pele, a abundância dos cabelos, o aveludado da voz, alguém que nos devolve uma parte de nós que a gente nem sabia mais que existia. Reencontros deviam ser vendidos em potinhos: o melhor anti-idade que existe.

E devagarinho a gente nota que a beleza da vida também vive na fidelidade dos ciclos. Porque quem vai e nos deixa mais vagos, quem parte e nos reparte em gomos, quem constrói pontes de saudade que ligam um lugar a si mesmo, quem esmaece da retina e da rotina, mas a gente nunca esquece, também um dia volta. E nós, que até então éramos só um tantinho menores pela falta, nos tornamos imensos pela presença, abençoados pelo reencontrar. Ontem reencontrei meu amigo Glauber.

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Deixa Como Está

bildeDeixa como está. Não daremos nome ao que temos vivido. Nomear é reduzir. Quando te perguntarem o que somos, diga que somos infinitos. Então deixa como está: você morre de saudades de mim e eu abro a porta, instantâneo. Eu reclamo sua falta e você fica um pouco mais, experimentando todas as minhas camisetas rotas que já aceitaram ser também teu tamanho.

 E você será meu irmão e, ao mesmo tempo, amigo. Cheio de liberdades que eu não precisei te dar. Amante do meu silêncio, libertador do meu riso, cúmplice da demência que cava meus poros pacientemente através dos anos. E eu serei seu pai e ao mesmo tempo filho das tuas vontades. E enquanto nossas memórias se misturarem, seguiremos escalando as alturas um do outro com as dunas pequenininhas que moram na ponta dos dedos.

E ainda que todos os livros sobre deuses fossem adornados com respostas aos porquês das crianças; ainda que todas as cartas de Florbela Espanca estivessem escritas na linha do pê; ainda que todas as canções de amor se deitassem itálicas, preguiçosas; que todos os poetas solitários do mundo escrevessem um verso em um guardanapo numa mesma madrugada; ainda assim, não haveria palavras que suficientemente nos descrevessem.

Margear é encolher. Nós somos horizonte, que finge que emoldura, que se faz de borda, mas jamais aceita se deixar acabar. Descrever é resumir. Nós somos descoberta, obra aberta, história contada pelos anciãos. Então, deixa como está. Deixa que sigamos indigentes, perdidos na doçura que é do outro. Regidos pela lei universal que é a vontade de estar junto, a cada dia que se refaz.

E quando as covinhas da dúvida te sorrirem, e quando sentir o ímpeto numérico de saber até onde vamos, e quando a insegurança, aquela velhinha torta, vier perguntar, basta que você se procure na imensidão dos meus olhos quando eu te olho. Somos a busca de um pelo o outro e somos também encontro. Então, deixa como está.

 

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Cartas dos Leitores: Como Fazer Um Camelo Desaparecer

palavra(Resposta à carta da leitora Erika do Rio de Janeiro-RJ)

Olá, Diego, como vai? Namoro há 5 anos, tenho 21. Passei minha adolescência e minhas experiências com a mesma pessoa me acompanhando a vários lugares, o amei muito e posso dizer que talvez seja o único que amei desenfreadamente. Porém, como todo namoro, há altos e baixos, brigas e acertos. E infelizmente, após 5 anos eu percebi que não tenho mais forças para lutar e continuar nessa relação. Estamos á deriva do nosso amor.

O problema é que ele é a pessoa certa, sabe? Aquele romântico que me enche de mensagens, aquele que deve apresentar aos pais, aquele que irá tirar sorrisos em horas que a alma esquece de sorrir. Entretanto, não está sendo mais a pessoa certa na minha vida nesse momento. Eu quero viajar, me encontrar, dançar, ter experiências loucas com minhas amigas para contar e até quebrar a cara se for necessário para o meu amadurecimento.  

Um dia, me disseram que a pessoa certa faz o momento virar certo, e com medo de perder uma pessoa extraordinária, fico em um relacionamento sem vida. Não o quero magoar e machucar, mas também não aguento mais essa situação de medo, de não valorizar a quem me valoriza, entende? Aguardo suas palavras e seus conselhos que aliviam. Um beijo e abraço carinhoso, Erika, Rio de Janeiro-RJ.

 


Oi Erika, lendo a sua carta, me lembrei de uma adivinhação que ouvi uma vez de um amigo austríaco. “Um camelo entra com metade do corpo em uma tenda. A cabeça e as duas patas dianteiras estão dentro. O rabo e as duas patas traseiras estão fora dela. Onde está o camelo: dentro ou fora da tenda?”. Pensei por um tempo e respondi que o camelo não estava dentro, nem fora da tenda. Meu amigo sorriu e disse: “Bem, agora você sabe como fazer um camelo desaparecer”.

Eu sei que parece uma brincadeira inofensiva de criança, mas essa adivinhação me fez entender que boa parte do nosso sofrimento está em não saber. Há beleza em ficar e lutar pela calma que ele te dá, em valorizar o tempo pelo qual se dedicaram, em valorizar a pessoa incrível que ele é, em respirar fundo mais uma vez e tentar novamente e novamente. De igual forma, há beleza em se reinventar, em se arriscar, em se permitir ser uma mulher diferente ali na frente. Há beleza em se perdoar, se você se arrepender, no mesmo nível em que há beleza em ser grata se essa escolha torna-la maior do que você já é. Escolha.

Pense por um segundo: se a sua escolha, não fosse fazê-lo mais feliz, nem mais triste; se a sua escolha não fosse fazer sua família mais triste ou orgulhosa; se fosse somente você a afetada; você se enxergaria mais feliz seguindo a sua rotina com ele ou sem a vida que conhece? Eu, particularmente, também tive que fazer essa escolha tempos atrás. Tive que ser honesto comigo mesmo e com alguém que amava muito. Meu camelo estava divididinho. E eu escolhi tirá-lo da tenda, cair no mundo.

Sabe, Erika, eu ficava remoendo futuros inalcançáveis, possibilidades, remoía tanto, que não me sentia mais capaz de fazer-nos feliz, de estar presente naquela relação. Sei que perdi alguém único, mas sei também que me encontrei. Depois de tudo que vi por esse mundo lindo, sinto que hoje eu seria um companheiro melhor, mais presente. Hoje, o meu camelo estaria inteiro dentro da tenda, fazendo uma bagunça danada, desengonçado, mas feliz, completo. Recentemente, Jô Soares contava uma história sobre seu filho falecido. Quando criança, Jô levou o guri numa livraria e, ao ver o pequeno com uma pilha de livros nos braços, disse que aquilo era exagero. “Escolhe uns seis, filho”, conta Jô, “Então eu não quero nenhum. Escolher é perder, pai”. Escolher é perder, Erika, mas não escolher é desaparecer de algum modo. Empurra esse camelo!

Um abraço do tamanho do mundo!

Diego Engenho Novo

 

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