Uncategorized

Perdão

16007-Old_Black-and-white_Photos_Vol_5_No_7Vai perdoando, a bagunça que deixei, o tempo que tomei, os sonhos que roubei de ti. Vai perdoando, as palavras que deixei de dizer, as impressões que tomei como verdadeiras, os sonhos que não te estimulei a seguir. Vai perdoando, se fui um pai distante, um filho inconstante, um amante insensível, um amigo ausente. Vai perdoando, se fui impaciente, se não escutei verdadeiramente o que vinha de ti.

Vai perdoando, minha falta de modos, meus olhos que julgam, meu medo que fere, minha pressa que atropela, minha verdade que dói. Vai perdoando, minha falta de zelo, minhas mãos que por vezes esquentam demais as suas. Vai perdoando, quando não entendi que tudo o que você precisava era colo, sossego e se demorar um pouco mais em mim. Vai perdoando, minha afronta gratuita, meus conselhos perversos de quem teme a tudo que se move no mundo. Vai perdoando, se falei sem pensar, se pensei demais, se te fiz esperar, vai perdoando se eu nunca vir a chegar.

Vai perdoando, meu desleixo romântico, meu despeito egoísta, minha infantilidade, meus desejos fúteis. Vai perdoando, minha incoerência, minhas interrupções abruptas, minha forma estúpida de pedir espaço. Incoerente que sou, perdoa também os espaços, por tantas e tantas vezes, claustrofóbicos do meu amor. Vai perdoando, meus sumiços furtivos, minhas aparições sem justificativa. Minhas dívidas, minhas cobranças abusivas, perdoa se eu nem sempre soube lhe dar perdão.

Vai perdoando, meu mundo avesso, meu olhar torto, minhas funduras, por vezes fundas demais. Vai perdoando, todos os dias que deixei de dizer o quanto te amo, o quanto venero a sua existência diária em meus pensamentos, o quão alimento você se tornou dos meus melhores sentimentos, e como essencial você é para que eu seja quem eu sou. Vai perdoando, se eu não sei pedir perdão.

(você pode ler ouvindo http://migre.me/nA4ZX)

Padrão
amor, paixão, segredos, sentimentos

Amigo Oculto

4412685231_2bd163cca8_oAbra o seu coração para o som das palavras do meu. Meu amigo oculto mora à sombra da minha proteção, cuidado pelos meus melhores sentimentos, pelas minhas mais doces palavras, pelas minhas preces de que o tempo não se apresse em afastá-lo de mim. Abra o seu coração para o som da minha gratidão.

E quanto mais me perco, e quanto mais me contradigo, quanto mais confundo, mais você me entende como quem aprende a olhar as horas num relógio antigo que já perdeu os traços dos minutos e beija os segundos, às vezes mais rápido, às vezes mais lento. E quanto mais te leio, e quanto mais te acredito, quanto mais te defendo, das viradas abruptas do mundo, mais entendo que quem me guarda é você.

Abra o seu coração para o som tranquilo das ondas dos meus pensamentos. Porque o universo construiu entre nós uma ponte invisível que nos torna um só continente, indivisíveis. Basta o seu olhar para atiçar o meu riso, a sua dúvida para me deixar a postos para o que for preciso, o seu chamado para que eu me torne morada, basta que você pense em mim para que eu me torne sentidos.

Assim, nunca se perca de mim, esteja sempre presente na órbita dos meus braços. Envolvido pelos meus olhares, cercado dos meus delírios, tocando meus dedos como pequenas estrelas frias e distantes, permaneça comigo. Meu amigo oculto, guardo-te como o mais delicado dos amigos, como o mais bonito dos meus medos, como o mais secreto dos meus segredos, que jamais será revelado, mas de mim nunca escondido.

Padrão
Uncategorized

Esquecido

Men_in_the_aircraft_cockpit_old_vintage_photoAcordei e levei às mãos ao rosto, sem abrir direito os olhos. Pensei por um momento que tivera perdido meus óculos durante a noite. E desde quando uso óculos para dormir? Conferi os chinelos no caminho até o espelho do banheiro. Ainda me restavam os poucos cabelos que as noites mal dormidas não levaram consigo. Às vezes sonho que perdi meus dentes: felizmente todos intactos. Ainda bem que sonhar com dente é bom presságio.

E passei a manhã com aquela sensação de que esqueci algo importante. Como quem deixa o carro no trabalho e volta pra casa a pé, como quem esquece o filho na porta da escola plantado, aniversário de vigésimo ano de casamento, o episódio final da temporada de seu seriado preferido, como quem se esquece de dizer para o melhor amigo como o tem adorado pela vida inteira. Diabos! O que foi que esqueci?

Algum procedimento burocrático? Algum papel que devia sair de um lugar esquecido para outro empoeirado? A planta, que vigia a rua e seus afazeres por mim, está viva. Hoje não é nenhum dos dois aniversários da minha avó. Seria domingo e estou outra vez vestindo-me para trabalhar? Nada no forno, nem fora dos armários, não há roupa mofando na máquina de lavar, estranhamente nada, nada fora do lugar. E no caminho que liga minha casa ao único café que ainda tem cheiro de café da cidade, fui me tomando de um sentido.

Aos poucos, sentindo-me manco, torto, amarrotado, fui sendo arrebatado pela consciência de um vazio imenso. Ah, é! É isso! Da vida o que jamais pude prever, distante de todas as promessas erradas que me fiz, ciente de que a prova de que existe algo de bom em mim é sua cegueira sobre isto, contrariando as linhas do meu rosto que ainda se enriacham até a fundura do seu rio, quem é que poderia imaginar que um dia eu poderia dizer que me esqueci de você?

Padrão
Uncategorized

Perdure

iwallfinder.com-series-no.-14-black-and-white-old-photo-27413A cada dia, o beijo materno da noite sobre o que se passou, assenta um pouquinho de sabedoria em nós. Dobrando pedacinhos de retalhos para fazer algo maior depois. Noite após noite, dia após dia, minha ânsia de te esperar se tornou uma calma estranha que só existe dentro de mim.

O amor virá quando estivermos prontos para aquecê-lo, quando tivermos alinhavadas as costuras de nossos aprendizados, quando formos mais inteiros que sozinhos. Há dias, entre as noites, em que penso que você se perdeu na longa jornada da vida até mim. Você já amou tanto alguém a ponto de preferi-lo liberto? Estar livre é se perder. Prefiro que você se perca de mim a te perder por inteiro.

Se sua estrada é outra, se sua estada é curta, se você jamais passar por mim como a Bela Cintra jamais passaria pela Haddock Lobo, eu ainda te amarei. Não se trata de generosidade, desapego ou espiritualidade pleiadiana, meu amor por ti é simples e quieto, como os homens que sabem escutar o rio ao entardecer. Meu amor por ti tem a pura razão de me pertencer, sem esforço teu algum. Te amo em espera, mas muito mais em esperança.

Te amar não depende de prender-te a mim, como um enfeite de saudade, como um adorno de sentido. Não pendures nada em mim, que já somos por demais pesados em ser quem somos. Guarde-se para quando nossos caminhos forem cruzados, nas Antilhas, na Venezuela, na Guatemala ou na curva de minha espera que contraria toda a lógica e me faz seguir adiante. Quando enfim, estiver diante de mim, perdure e eu também me perderei em ti.

Padrão
Uncategorized

Grávida

new-leeds-oldAcho que ficamos por uns 45 minutos olhando para o teste de farmácia sobre o balcão da cozinha como quem encontra um passarinho morto no quintal – Duas linhas é negativo, não é não? – disse Cíntia, olhando pela décima vez – Como é que eu vou botar uma criança num mundo louco desses? Anda tudo tão errado, há tanto desamor e eu procriando como se fosse a Simony do Balão Mágico – Ficamos ali abraçados por um tempo – Dois pauzinhos é positivo ou negativo? Dá aqui a caixa outra vez – desencaixando a cabeça do meu ombro esquerdo.

Sabe, Cíntia, podem me acusar do que for, mas eu simplesmente não consigo ver o mundo tão mal assim. Claro, estamos todos meio perdidos com tanta reorganização de comportamentos e significados, com tantos sentimentos se transformando, estamos mudando, para uma casa maior, eu imagino. E eu vejo tanto amor nas ruas, tantos casais falando baixinho no meio do barulho das cidades, tanta gente se encontrando quando todos parecem embriagados emocionais.

Enquanto tem gente carrancuda dizendo que as pessoas se afastaram, meus amigos que mais amo passam o dia me contando piadas, me mandando fotos da nova tentativa de ter uma horta em casa, me ligando de madrugada pra dizer algo que se esqueceram em 1994 e só lembraram agora – Eu sempre gostei da forma como você ajeita o cabelo atrás da orelha! Era isso! Lembrei! – rimos por umas sete horas.

Nós nunca quisemos estar tão próximos, nunca apreciamos tanto a criatividade, nunca fomos tão bem humorados, nunca nos apaixonamos tanto, nunca tomamos tantos pés na bunda, nunca na história da humanidade nós nos levantamos tantas vezes seguidas. Nunca tivemos uma fé tão linda com deuses e deusas misturados, como se a nossa alma estivesse dançando. Nunca escrevemos tanto, lemos tanto, nunca sentimos tanta saudade das coisas mais simples da vida. #bolodemilho#dormirderede #tervitrola #sejuntarnaspraças

Essa distância toda que a vida pareceu criar só torna ainda mais incrível as raras e maravilhosas possibilidades do encontro. Olhei na caixa do exame, querida: aquelas duas linhas significam duas pessoinhas, significam que você vai ter companhia e isso só pode ser positivo. Seu bebê não está ganhando um mundo pior, Cíntia. É o mundo que pode ganhar uma nova pessoa incrível se ela for criada por você.

Padrão
Uncategorized

Buscadores

Vintage-everyday-big-snow-struck-in-1946Naquela manhã em Villa Las Estrellas, Ananda colocou a ponta do nariz pra fora, seguindo o som das crianças que brincavam na neve. Aqueles pontinhos coloridos sumiam e reapareciam como que magicamente. Entre elas, o irmão mais velho, Pablito, comandava uma brincadeira que para Ananda não fazia muito sentido – As coisas que nos fazem mais felizes são preguiçosas de sentido e inundadas de sentimentos – pensou.

Brincavam assim: ao comando do mais velho, saiam um grupo de três para um lado e outro trio na direção oposta. Alguns metros adiante, um deles bradava – Aqui! – e começavam a juntar a neve em baldes, carrinhos, panelas, nos braços, onde quer que fosse e voltavam correndo para a marca inicial em que mais algumas crianças começavam a fazer uma espécie de boneco de neve – Pablito, Pablo! Como se chama essa brincadeira? – curiosa. Sem tirar os olhos das crianças que corriam, respondeu para ela que se chamava “carrera”

– Quem termina o boneco primeiro ganha? – insistiu. Pablo fez que não com a cabeça – Quem corre mais rápido é que ganha, Pablo? – intrigou-se. Pablo negou outra vez – Ganha quem carrega mais neve, é isso? – já sem opções – Ganha quem acha a neve mais bonita – resumiu sem muita paciência com a pergunta boba. Veio aos dentes dizer que neve era tudo igual. Veio, mas parou ali, na beirada do abismo do dizer.

Com o tempo, notou que todas as manhãs as crianças pareciam fazer a mesma brincadeira, com nomes diferentes: “Revolver”, respondeu uma – “Loco Loco”, gritou a outra carregando um montão de neve esbaforida. Sentou-se à janela e ficou vendo-as brincar de sua brincadeira sem sentido e sem nome, pensando na noite em que abandonou um noivo, mil planos e embarcou para o mais longe que pode a convite de uma amiga. Jamais pensou que iria tão longe, quando colocou o passaporte na bolsa, quando viu Claudio pela primeira vez. Ele nunca foi tudo o que ela quis, mas certamente era tudo o que ela havia pedido, então, o aceitou. E ali, observando as crianças de Villa Las Estrellas, ouviu seu coração dizer baixinho que devia aceitar-se com doçura.

Há gente que prefere a busca que o encontrar. A busca é cheia de esperança, como uma janela que se abre para a rua e suas novidades – Eu sou uma buscadora, não uma encontradora – riu sozinha do termo que acabara de inventar. Essa era a brincadeira dos meninos: se mover, se manter aquecidos, procurando por algo que só existia aos seus olhos, e no fundo, rezando para nunca encontrarem. No frio ou na vida é preciso se mover para nos mantermos aquecidos, vivos. Quem é de buscar, que busque. Quem é do encontro, que encontre. Embora muito parecidos, não há um só floco de neve igual nos montes de Las Estrellas.

Padrão
Uncategorized

Medianeiras

medDa janela consigo ver todas aquelas caixinhas de luzes que são os apartamentos à frente. Eles sempre estiveram ali, me vigiando enquanto escrevo, me censurando quando rego demais e afogo o alecrim, me consolando nas horas que espero meu amigo que está sempre atrasado para nossos compromissos sem hora. Mas hoje, escrevo pra eles, e não sob suas vistas.

A velhinha que passa roupa todas as noites, mas nunca sai de casa. O rapaz engraçado que tem uma barra de poledance no meio da sala, mas às vezes chora lendo suas mensagens no telefone sentado no chão. Logo acima, o casal de fumantes que passa longas horas em silêncio, lado a lado: o mais velho, o menos velho e o fim. No último andar do prédio branco, a moça me olha com seus binóculos. Eu não me importo. Acho até que me faz companhia. Seu olhar invasivo de qualquer forma é interesse por mim.

A ruiva que veste quatro roupas diferentes antes de sair com a primeira opção; o gato que se esfrega na vidraça sobre o sofá; o viciado em pornografia que adora flores. Logo abaixo, o rapaz insone que vê TV todas as madrugadas. Às vezes, quando vou à cozinha tomar algo, ele também está na dele bebendo sua coca em garrafa de vidro. A mulher que adora a chuva e ensina seu valor para os dois filhos que cria sozinha; a menininha que dança engraçado na janela quando os pais vão para a cozinha; a moça que pinta seus quadros e eu passei a chamar de Ângela porque acho que combina.

Se você está lendo agora, acene pra mim. Vamos afrontar a avenida, insultar as distâncias, acene pra mim. Tudo bem, há mesmo o risco de você acenar, e de que não seja eu, de que não seja ninguém, de que parece bobo. Mas há também o risco de alguém nas caixinhas da frente responder, há o risco de alguém que mora na caixinha pequena da frente ser o presente que você sempre pediu. Todas as pessoas do mundo estão sozinhas esperando por um aceno seu.

Padrão