Ame Cada Segundo

iwallfinder.com-series-no.-13-black-and-white-old-photo-27441Ame cada segundo. Há mais eternidade ali, nos milímetros do olhar que se entrega do que envoltos numa vida inteira. Ame cada segundo e após isso, ame diferente de novo, de trás pra frente, como um filme que se prepara para novidade de novo. Ame o que ainda não conhece, e depois o que já conhece. Há sempre uma trilha nova beijando a estrada.

Ame com cada sentido. Desvende seu cheiro que fica ainda mais doce conforme se aproxima a noite, ame cada segundo do seu som existindo dentro do peito. Ame seu gosto de fruta do oriente. Toque seu rosto e se deixe tocar por ele. Ame cada segundo, não como o último, nem com a afobação do primeiro. Ame como o segundo que mora ao meio do minuto: tranquilo, sereno e cheio de cumplicidade, mas ainda infante pelo que não veio.

Ame cada segundo da saudade que ainda nem é saudade, que só é lembrança da ausência, percepção da dormência do tempo. Ame mesmo dormindo quem já nasceu em seus sonhos. Ame seus defeitos que com o tempo serão mais dignos de aceitação que de tristeza, mais de riso que de raiva, mais de compreensão da natureza do outro em nossa própria natureza.

Ame, desde o primeiro segundo. Quem ama em porções bem pequenas, ama bem mais. Quem ama na verdade de cada miudeza, ama grande. Quem ama com delicadeza, ama intenso. Quem ama com verdade, ama duas vezes. Triste mesmo é viver do que é raso e confiar nas horas. A medida mais certa do amor são os segundos que o rodeiam. Quem ama em gotas, de fato morre afogado, mas também navega nas águas profundas do amor por toda uma vida inteira.

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Manual Simplificado do Amor

iwallfinder.com-series-no.-13-black-and-white-old-photo-27439Guarde consigo este segredo, assim como tenho guardado dentro de mim até hoje. Há escondido entres as ruínas de Ellora um manuscrito secreto para os amantes, um Manual Simplificado do Amor. Em poucas linhas, que quase se perderam no tempo, Simone pôde ler o segredo que mudou sua vida e depois a minha, quando me contou. Você está pronta?

Pergunto se você está realmente pronta porque em todos esses anos, Simone, como eu, pensou que a dificuldade de amar estivesse em quem recebe nosso amor. Na falta de preparo do porto que aporta e não do navio que transporta. As personalidades que se contrastam, o orgulho que supera vontades, o medo que vence a lógica, o amor e seus tantos inimigos cativos. E ali estávamos: boquiabertos com os escritos de Ellora. Ficaram ali, por centenas de anos, solitários. Como nós diante da verdade.

Então, responda com sinceridade: você está pronta? A verdade sobre o amor assemelha-se às ruínas onde Simone a encontrou. Elas, as ruínas, não foram feitas para levar a lugar algum, mas para perder-se. Elas sussurram como crianças que assoviam segredos, uma para a outra. Elas desejam que você permaneça lá, descobrindo-as à boa vontade do que é infinito, desvendando-as para sempre, brincando de se perder. De fato, amar ainda é muito mais se perder do que se encontrar.

Se estiver pronta, digo agora o que li. Foi preciso ir fundo para enxergar a superfície rasa sobre nós. Se estiver pronta, repito agora. Mas, você está pronta mesmo? Assim diziam as poucas linhas do Manual Simplificado do Amor – Para beber, não entregue sua sede ao rio, mas receba-o. Para adormecer, não ofereça seu sono à noite, mas receba-a. O que é essencial não pode ser colhido. Como um lago que reflete a lua e naquele instante se sente parte dela. Para amar, há de se receber o amor. Você está pronta? Para se deixar amar? Todo o mistério mora nisso, na claridade do que é simples, mas nem sempre fácil.

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Gravado

Ecamelosm uma pequena portinha da Avenida São João. Foi ali que esperei por alguns minutos até recuperarem para CD uma fita K7 que encontrei em uma caixa antiga. Não havia nenhuma inscrição, capa, nem pista, nadinha. Só mesmo as escritas do tempo em seu acrílico ralado e um lado mais ouvido do que o outro dos lados. Em casa, sentei-me ao lado da janela como quem vai ouvir um amigo que telefona do exterior. Não era uma música. Era a voz de um menino. Era eu.

Som, som, som, testando. Gravando! Eu sei que com o tempo você vai se esquecer, mas hoje, tudo o que você mais quer é ter algum significado. Você tem? Encontrou pela vida pessoas que te amam muito, que cortariam o dedo por você? Você foi pra Índia, pro México, pra um faroeste? Sentiu o cheiro de um camelo? Você já comeu caramujo? Você já encontrou alguém que ame tanto que sinta dor de barriga? Você aprendeu a pilotar um avião?

Hoje na escola, a professora deu um livro e um desafio: quem em meia hora conseguiria encontrar mais palavras proparoxítonas (isso te serviu de alguma coisa? As proparoxítonas e a raiz quadrada de oito?). E não é que você ganhou? A professora disse que você era bom em encontrar palavras e você discordou, por dentro. Por que, não sei aí na frente, mas aqui, a gente sente que ainda não encontrou as palavras certas pra dar nome pro que sente. Você se encontrou com elas? Eu ainda existo por aí? Mesmo que um pouquinho em você? Eu ainda existo ou eu dei lugar para alguém que não entende nada de camelos, o animal mais incrível que existe? Tenho que ir. Câmbio desligo.

Fiquei ali, encolhido, meio que sorrindo, meio que chorando. Queria que ele soubesse que, sim, eu amei até sentir dor de barriga e tantas outras dores. Doeu pra caramba e foi incrível, vai entender. Que sim, eu encontrei algumas palavras, mas que muita coisa na vida prefere não ter nome. Que sim, me encontrei com gente que me amou bem mais do que eu já mereci. Você ficaria contente em saber que acabei de comprar uma passagem. Acabei de me lembrar que meu mundo é bem maior que essa ilha de sentimentos indigentes. Em março, sentirei o cheiro de um camelo, o animal mais incrível que existe. Eu prometo.

 

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Cristina

cristinaaA esta altura estava sozinha. Ninguém podia ouvi-la tão bem quanto ela mesma. Por dentro o som que se ouvia zunia gelado, cortando, se arrastando como que fossem folhas de outono rangendo-se enquanto se misturavam. Este era o som da solidão ouvido do outro lado, escutado por dentro. Abriu com um abridor uma lata, devagarinho, porque não havia muito mais o que fazer na casa.

Estava sozinha. Não que estivesse realmente desprevenida para estar. Havia ensaiado aquele passo solo nas noites em que pegou no sono no sofá e ninguém veio lhe buscar, em suas idas ao parque disfarçadas de paz, havia ensaiado com a pizza de oito pedaços que se congelava por mais de uma semana, havia coreografado o estar sozinha, mas ninguém está preparado para se enxergar sozinho. Este era um momento daqueles em que a gente não se basta. Abriu também a curva da lata.

Mas quando é que você volta mesmo? – perguntou Cristina, em sua impressão constante de que tamanha sensação de estar sozinha só poderia significar que ele veio, beijou-a durante a noite e partiu nas pontas dos dedos. Preferia pensar assim. Que aquela solidão era de quem esperava retorno, de quem sentia falta, não era aquela espera boa da vinda do novo. Aquela saudade era antiga. Cristina esperava a volta de alguém que nunca veio, nunca foi. Nunca foi seu.

Metade da tampa da lata mostrava os dentinhos do corte forçado. Pensava sempre que, sozinhos, ninguém poderia provar que nós existimos mesmo, somos um livro que não teve lido nem sua contracapa. Pensou que a gente é altura, peso, distância, documento, sequência, e isso não é história direito. Amados somos palavra, sozinhos somos número. Primos, indivisíveis, insolúveis. Cristina pensava demais.

Ao terminar de abri-la, afastou a tampa apática e foi golpeada. Dentro da lata não havia ervilhas como as prometidas na imagem, havia na verdade uma enorme e farta variedade de grãozinhos amarelos de milho verde.  Não se conteve: riu alto, gargalhava inocente, até dar dor de barriga. Foi ali que esqueceu que vivia sozinha e lembrou-se que era ótima companhia para si mesma.

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Segundas

segundasAlguém me explica esse verdadeiro pânico às segundas? Essa segundofobia desenfreada, essa difamação exagerada de um dos meus dias preferidos da semana? É claro que eu adoro as sextas desencanadas, os sábados festivos e os domingos preguiçosos, mas é a segunda-feira a menina dos meus olhos. O que mais me irrita nas segundas é que me venham falar mal delas.

Segunda é dia de ação, de tirar os planos da gaveta, segunda é o réveillon da semana. Dia de mentalizar pedidos, estabelecer metas e acreditar com o coração. É preciso inventar simpatias, preces, manias adoráveis, é preciso enraizar a crença de que essa nova largada na corrida da vida será em direção à vitória, às conquistas.

Você vai ouvir muita gente dizendo que as segundas-feiras são as mães das dietas fracassadas, mas quase ninguém te diz que boa parte das dietas que deram certo também começaram às segundas. Não leve a mal, tem gente que reclama porque aprendeu assim, mas cabe a nós ensinar diferente para os nossos filhos. Temos uma segunda chance nas mãos.

Segunda chance para amar melhor, segunda chance para escrever aquela carta, segunda chance para cuidar de si, segunda chance para procurar um emprego novo ou dar sentido ao seu velho emprego. Segunda chance de ser mais gentil, mais humano, mais você mesmo. Segunda chance para resgatar um velho hábito que te fazia feliz, um velho amigo com quem não conversa há tempos, para transformar aquelas milhas na viagem dos sonhos. A vida é o que a gente conta sobre ela.

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Parem de Tentar Entender as Mulheres

mujeres2Loucas, destemperadas, instáveis, indecifráveis, as mulheres nunca estiveram tão doidas, meu deus. Querem. No segundo seguinte já não nos querem mais. Já não querem nem mesmo a si mesmas, uma orgia de quereres, de vontades que não se concluem, de medos que não se assentam. As mulheres, minha gente, nunca na história deste país foram tão deliciosamente desmioladas.

De tanto praticar, alcançaram a perícia esgrimista de coabitar em emoções. Já nem separam mais o instante de chorar do seguinte de rir. Choram e riem, ao mesmo tempo. Se aproveitam da boa relação diplomática entre os polos de seus super cérebros e choram e riem e mudam de canal, num só movimento. Elas podem te adorar em pensamento e te mandar uma praga por entre os dentes, elas podem se sentir extremamente solitárias, carentes e hilárias, não de você, mas de queijo, de doce, de estrada. Vai entender.

Deram pra gritar nas calçadas, nos portões, deram pra exigir de volta seus chips, como quem pega de volta a dedicação, o tesão, os ouvidos e os beijos sem ar que nos deram. Acabou a farra da entrega. As mulheres de hoje não se dão, se emprestam e depois tomam-se de volta. Não morrem mais de amor, não arranham as paredes. Fazer as unhas nunca custou tão caro.

As mulheres que gritam enquanto caladas, que se doem enquanto gozam, que se culpam enquanto se orgulham, essas mulheres jamais pediram para serem compreendidas, essas doidas varridas, não estão tentando se simplificarem, estão se esforçando pra ficarem ainda mais, só um tantinho mais, doidas. Certas elas, quando resolvido todo mistério deixa de fazer sentido. Parem de tentar entender as mulheres. Melhor que entender é compreendê-las entre seus braços. Pare de tentar resumi-las, pare de tentar encontra-las e vá com tudo se perder na loucura delas.

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Mãos Dadas

maosdNão solta a minha mão! – disse, apertando os meus dedinhos. Esperneei que eu nem tinha medo, que já era grandinho e ela me saiu com uma daquelas que me quebravam em dois: Eu sei que você não tem medo, mas eu tenho. Por isso pedi pra você não soltar a minha mão – sorrindo. Na época, me senti o garoto de sete anos mais forte das redondezas.

Andam de mãos dadas os pais, filhos, casais, amigos para espantar o medo de se perderem, ensinando para o universo o caminho de volta. As mãos, que nasceram prontas para se encaixarem, seguram, guiam, comunicam, pontuam frases inteiras, sem se soltarem. Um recorde mundial. Há um mundinho pequeno e doce ali, quando duas mãos mais parecem uma rosa, preguiçosa em abrir as janelas.

Jamais me esqueço do dia em que Clarice e eu dormimos com o dar de mãos estirado pra cima, como se fosse uma tendinha, como uma dupla de misses universo que empataram. Paz mundial. Os cotovelos apoiados no colchão de fofocas e os punhos grudados lá em cima, como que voando. A gente desmaiou de cansaço de tanto conversar, mas continuávamos grudados, numa quebra de braços em que o objetivo não era derrubar, mas manter em cima, no alto, senhores de sua própria fé. A gente desaguava um no outro.

Hoje, décadas depois, minha mãe ainda se atraca em mim para atravessar a rua. Exagera que a idade a está deixando cegueta. E eu adoro. Porque hoje, sou eu quem morre de medo de perde-la por aí. Com os anos descobri que a gente aperta bem forte a mão de quem ama muito mais por medo de nos perdermos de nós mesmos. Porque a gente é metade o amor que deu, metade o amor que recebeu, e o afeto é parte do que nos mantém inteiros.

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