Aceitar a Vida

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iwallfinder.com-series-no.-12-black-and-white-old-photo-27459Essa é a história do homem que não sofreu. Não sofreu porque não teve escolha. Digo, não sofreu porque não precisou escolher. Aceitou o nome que lhe deram, aceitou o comportamento previsível de seu signo. Nasceu sob a luz de Leão: tinha de ser ciumento e apaixonado por atenção.

Aceitou as roupas que lhe vestiam, a comida que lhe ensinaram a gostar, aceitou os brinquedos de meninos que costuravam o quarto de paredes azuis. Aceitou que não devia se sujar, não chorar, não sentir dor. Aceitou namorar a menina que todos queriam namorar, a convenceu que sexo era tranquilo e bom, mesmo estando apavorado.

Aceitou seu primeiro cigarro, seu primeiro gole, seu primeiro tiro, para ser aceito. Aceitou que devia sofrer quando a menina que todos queriam namorar se despediu da companhia dele. Lhe mostraram outra garota, que todos queriam, e ela passou a ser vontade dele. Aceitou se casar, com as flores que ela escolheu.

Aceitou ir morar no bairro em que todos queriam viver. Aceitou que móveis caros eram bonitos e que o carro do ano era liberdade. Aceitou que devia ter filhos. Dois. Nem mais, nem menos. Gostou do nome que todos gostaram. Aceitou que homens têm recaídas. Transou com a mulher que todos queriam. Aceitou o tempo que passava ao longe, aceitou a velhice que se encostava com um cão de rua friorento, aceitou calar-se um pouco mais, dia após dia.

Quando a morte veio, aceitou-a como devia ser. Morreu sem lutar, assim como viveu. Aqueles que o velavam diziam – Foi um homem bom – pouco antes de esquecê-lo – Fez a passagem em paz, sem sofrer – sibilavam pelos cantos. Nessa vida há de se enfrentar a dor para ter brilho, há que se encher de rebeldia diante dos pitacos dos outros, há que se vestir de loucura, para não morrer por sonhos que nem mesmo são seus.

Há que se viver com coragem e aceitar que os caminhos já abertos não levam a lugares novos. Há que se trilhar com verdade, caminhar com firmeza, amar com vontade a vida que temos hoje. Pobre do homem que viveu sem sofrer e morreu sem viver uma vida inteira.

Cartas Para Gabriel: Se Ter Vazio

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bette-davis-black-and-white-old-hollywood-smoking-Favim.com-192084Querido Gabriel, após tentar de todas as formas, como me disse, chegou à triste conclusão de que não pode amá-lo. Ele é a pessoa perfeita, na hora perfeita, mas ainda assim, algo lhe falta. Tem os olhos cálidos de tanto que te amam, tem em ti seus mais doces pensamentos, e uns braços gigantes que o adotam toda vez que te abraçam. Ele te dá tudo o que você precisa, mas ainda assim, não o que lhe basta. Como já disse, em outra oportunidade nossa, nem toda casa espaçosa se torna um lar. E o que é o amor do outro senão morada?

Sabe como os povos do Boqueirão da Onça fazem um tambor? Eles queimam uma tora de árvore antiga, aquecem o couro, que range com o som de um choro, machucam a madeira até ocá-la, lixam, esticam nele a pele até que desista de ser outra coisa. Ao final, de toda a tortura morta, o som que se escuta é forte e vívido, como as primeiras palavras de uma criança. Mas o que mais me encanta é que para ser forte, para ser som, para ter sentido, o tambor precisa ter-se vazio, como você se tem agora.

Se você não o ama, se não suporta mais viver de metades, se acha injusto, abraçá-lo e fazê-lo ainda mais sozinho, é melhor que o deixe às margens da ironia que é ser só por inteiro. Lembre-se de não mais lamentar seu vazio, seu peito que não ama ninguém. Lembre-se de aceitá-lo arredio, tardio, calado, na paz de quem trata o próprio silêncio com a delicadeza necessária. Da dor que você partiu, para o vazio que sente agora, brotará o mais puro dos ritmos involuntários, embanhecido de coragem, uníssono da verdade, ecoando o som indubitável e inconfundível de um amor que valha.

1001 Maneiras de Ser Mais Feliz Hoje Mesmo

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happ2Da primeira vez que vi qualquer livro da série “Coisas Para Fazer Antes de Morrer”, minha primeira reação natural foi a estranheza. Falar de morte ainda é tabu pra gente que adora viver.

Hoje já acho o título até bem humorado, mas por via das dúvidas criei minha própria lista e ela se chama “1001 Maneiras de Ser Mais Feliz Hoje Mesmo”. Claro, a felicidade é uma meta em eterna construção. Não sei se um dia chegarei a um número tão exorbitante, mas decidi dividir alguns dos meus preferidos.

1.Compre flores para si em um dia qualquer.
7. Decore um poema.
16. Perdoe alguém que não lhe pediu (e provavelmente jamais lhe pedirá) perdão.
34. Faça uma viagem pedindo carona (ainda que bem curtinha).
52. Faça um novo amigo e peça que ele não lhe conte como ganha seu dinheiro pelo menos durante o primeiro mês.
97. Ouça e cante uma música da sua adolescência bem alto no carro.
115. Elogie sinceramente um completo desconhecido.
178. Escreva palavras positivas nos azulejos do banheiro. Elas vão ajudar a te limpar por dentro.
259. Peça a benção de alguém que você ama independentemente da sua fé.
331. Faça seu próprio pão, numa manhã de domingo.
520. Ajude um animalzinho a encontrar um lar.
700. Coma sorvete direto do pote ou pizza como se fosse uma Tartaruga Ninja. Eu sei, é muita comida. Peça ajuda para isto.
817. Escute alguém que ninguém quer ouvir por pelo menos três minutos inteiros.
934. Peça para uma criança lhe contar uma piada (esteja preparado para lhe contar outra em retribuição. É claro).
1001. Agradeça a alguém por algo que ela lhe faz o tempo todo e já parece banal.

Do Seu Jeito

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komik_enteresan_resim-1Ninguém devia se importar com seu corte de cabelo, sua roupa justa, sua fé em pêndulos, seu desejo por morangos azedos, sua boca suja de palavrões inteiros, sua bota da estação passada, suas unhas sujas da terra que você plantou.

Ninguém devia se importar com seu riso alto, sua voz que quase não fala quando não há o que dizer, sua preferência por séries, muitas vezes mais sensatas que pessoas, seu amor por um pet, pelos livros que você não sentiu o mínimo tesão de ler.

Ninguém devia se importar com as delícias que decidiram morar em você. Ninguém devia ligar a mínima para seus óculos extravagantes, sua bolsa gigante, seus brincos de diamantes que você nem pode pagar.

Ninguém devia ligar se a namorada nova do Miguel não conhece tão bem outros verbos além de beijar, amar e abraçar. Ninguém devia se importar com quem gasta dois terços do salário com jogos e outro terço com comida congelada pra não ter que perder tempo com o que não lhe importa.

Ninguém devia ligar para os casais que nem mesmo respeitam o período de carência dos convênios pra casar – Eu adoro seu jeito de rir. Vem morar comigo? – e amou aquele riso desconhecido por muitos anos ainda. Ninguém devia se importar com nada isso.

Ninguém devia ligar para as pessoas que dançam, que bebem demais, que dizem que amam sem nem conhecer. Nem com a chuva que invade o meio do dia, nem com os garotos de doze anos que andam de salto melhor que você.

Ninguém devia ligar para a ausência de proteína no prato dos veganos, para a ausência de cabelos, para o banquete de unhas, para a falta de jeito de quem não sabe gargalhar sem roncar. Ninguém devia ligar pra quem ama o funk e acha que Roberto Carlos é mais nu dos reis nus.

Ninguém devia ligar, já que a vida é um tempo tão curtinho e sedento, que voa na pressa do tempo, sem perdoar as nossas distrações. Ninguém devia se importar com as tentativas dos outros de serem felizes do seu jeito. Ninguém devia ligar, mas somente tentar, fazer ao menos uma coisa na vida, como jamais foi feito.

O Que Ninguém Contou Pra Gente

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childNinguém disse pra gente que um dia nós teríamos preocupações maiores do que passar de ano. Ninguém contou que não haveria volta após nosso primeiro cadarço amarrado, nossa primeira ida independente ao supermercado, nosso primeiro coração despedaçado. Ninguém disse que o sono que nos arrasta de volta pra cama, um dia, simplesmente iria embora, deixando a gente na companhia dos pensamentos lentos e dos filmes antigos na TV.

Foram contando aos poucos, que o céu não era azul e que o velhinho vestido de vermelho e barba no shopping ganhava por hora pra ouvir da gente nossos perrengues. O que ninguém contou é que ser adulto é olhar cada vez menos pro céu e contar cada vez mais para os estranhos os perrengues da gente. Para alguns deles, a gente também paga por hora.

Ninguém disse que a comida da nossa mãe, da qual a gente mais reclamava, era a que um dia ia fazer mais falta. Ninguém disse que os amigos poderiam um dia sumir tão magicamente quanto apareceram, após cumprirem sua missão graciosa de nos ensinar um truque novo. Porque raios ninguém contou que um dia nossas gordurinhas e dobrinhas iam deixar de ser graciosas pros mundo? Eu adoro as suas. Adoro tudo que venha com você. Adoro tudo que fica comigo.

Ninguém disse pra gente que havia dor maior que caco de vidro na sola do pé, testa fincada na quina da porta, maior do que as dores dos dentes cadentes feito estrelas. Ninguém disse que depois de crescidos, chorar não ia resolver grande coisa. Que chorar só iria fazer jorrar uma fonte abundante que a gente carrega por dentro e que o povo antigo chama de fé.

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Abração, Diego e equipe Palavra Crônica

Bandinhas

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16025-Old_Black-and-white_Photos_Vol_4_No_13Marcus passa meses sem dar as caras. Do nada me manda uma mensagem sem muita cerimônia – Ela me largou. Outra vez. Tô pra ficar doido. Que eu faço? – Pra ela voltar? – perguntei – Não. O que eu faço pra ser sozinho e não enlouquecer – Fiquei um tempo pensando se seria sensato avisá-lo que já era tarde demais.

Não, nós não fomos projetados para ser sozinhos. Toda a nossa aerodinâmica é voltada para o encontro com o outro: braços que se alongam até alcançar, mãos que se entrelaçam como um engate entre sonda e plataforma espacial, olhos que se buscam até se beijarem, pés que se aquecem mutuamente, problemas de coluna que nos entortam o suficiente para cabermos numa conchinha perfeita.

Apesar desse conluio universal, nada justifica o pânico de ficar só. Talvez ficar a sós nos lembre que um dia podemos ser sós. Talvez, só seja uma oportunidade de se ouvir que a gente prefere não ter. Verdade dói e ela faz eco nas cabeças como se fossem salas vazias. Talvez seja a hora de fazer as pazes com a nossa solitude e passar a valorizar a própria companhia de forma serena, porque assim como viemos, todos nós partiremos docemente sós.

A melhor e mais segura maneira de aprender a ser só é exercitar isso quando não se está sozinha. Como uma bicicleta com rodinhas. Para tudo na vida que parece ter sido feito pra dois, existe uma versão mono. Brigadeiro pra um, cinema pra um, pedalada pra um, sexo pra um. Quanto mais aprendemos a nos divertir com a nossa própria companhia, melhor companhia seremos pros outros.

Marquinhos faz o caminho inverso: tenta aprender a ser dois na vaga constância de sua própria companhia. Lembra? Daquela historinha? Que somos laranjas, procurando bandinhas? Isso nunca me fez sentido. Há claro um sentido de pertencer quando duas metades estão grudadas, juntinhas. Mas só há sabor de verdade quando cada metade sabe ser doce sozinha.

Crise de Abstinência

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Cary-in-Arsenic-and-Old-Lace-cary-grant-4295811-1024-768Acordou de um pesadelo, suando, sem fôlego. As mãos trêmulas tentavam acalmar o próprio peito. A garganta seca, estava fechada, a cabeça doía, as vistas embaçavam num misto de dor e de lágrima. Três meses limpa, sem nada, nem uma pequena parte. Mas naquela noite, tudo nela pedia que voltasse a ser quem era antes.

Ainda sem ar, também não ouvia, nem mesmo os próprios zumbidos, muito menos a própria razão. Não podia, não podia ignorar tudo o que lutou, tudo o que sofreu, tudo o que perdeu pelo caminho. Não podia, mas queria, mesmo que por dois segundos saber que gosto tinha outra vez. Tinha gosto de liberdade, enquanto prendia. E gosto de verdade, enquanto mentia. Tinha gosto de viagem, enquanto só uma parte ia.

Mas sempre, a cada nova crise, aquela mesma sensação de que os meses pudessem ter mudado algo a levava a pensar que aquele gosto tão conhecido, podia mesmo ter tomado um gosto diferente. Teve cãibra, febre, alucinações. Naquele instante toda a dormir vivia antes parecia pequena diante da dor que sentia agora. Parecia mesmo valer a pena, tirá-la com a mão, mesmo que por uma noite, dose pequena.

Pegou o telefone. Bastava ligar e pedir. Estaria à porta em quinze minutos e dentro de si, no minuto seguinte. Uma dor furava o estômago de dentro pra fora, como se a verdade quisesse sair, como se o que não foi dito tomasse forma e lhe rasgasse. O que mais havia a dizer?

Gritava, gritava, um grito que não saía, um choro que não fluía, uma dor que não tinha nome. Nesta casa não dizemos mais aquele nome. O nome da sua vontade, da sua saudade, do amor que tinha. Só por hoje, ser forte. Só por hoje, ser franco. Só por hoje ser maior do que o medo de permanecer sozinha. Quase toda dor é mesmo uma luta sozinha, injusta, mesquinha. Não, estava enganada. Ele não era a cura, mas o motivo de estar doendo. Havia de também passar um dia.

Pare o Que Está Doendo

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Funny-vintage-photos-from-old-times-5Tudo bem. Me enganei. Não eram só duas estações de metrô. Eram quatro. Andamos o equivalente a quatro estações de metrô a pé. Eu a convenci que seria fácil, rápido e bucólico, caminhar até a loja de discos pela calçada esburacada, de salto. Chega! Estou cansada! – e Monick parou, do nada, como se a tivessem jogado numa cápsula criogênica, daquelas em que congelam alguém para acordá-lo num futuro melhor.

Desde esse dia, sempre que escuto alguém, que consolo alguém, que consolo a mim mesmo, e sempre que aquelas mesmas palavras aparecem – Estou cansado! – a minha resposta é a mesma – Então pare, ué. Pare. Pare agora mesmo. Pare a confusão, pare o sofrimento, pare a dor, por dois segundos que sejam. Parar é uma escolha sua. Pare o medo, pare o apego, a dependência, a insegurança, o ego, pare de se vitimizar pela incapacidade dos outros de te amarem direito.

Tudo bem, talvez você tenha se enganado também. Talvez tenha superestimado sua capacidade, seu trajeto, o caráter dos outros, sua capacidade de permanecer puro nos seus próprios sentimentos. Então, se está cansado, só pare. Pare agora mesmo o que está evitando fazer. Muna-se do seu pijama que não julga, seus filmes que não exigem demais ou sua música preferida que já te conhece tão bem. Esse é seu dia maia fora do tempo, seu domingo sonolento em plena quarta-feira, sua greve serena até que o universo decida negociar.

Tudo espera, ainda que não por muito tempo. Se não sabe o que fazer, não faça. Se não sabe o que escolher, escolha não ter que escolher. Só pare. Não se sinta covarde ao fazê-lo. Os covardes não são os que param, mas os que fogem. Os que param ainda estão enfrentando seu oponente de frente, como um samurai que cumprimenta seu inimigo solenemente, antes de matá-lo. Mesmo na criogenia não há garantias de futuro melhor. Na pausa que cura, no espirar que revigora, na esperança futura, quem melhora é a gente.

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