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O Fundo do Poço

"Old" Old Well, University of North Carolina at Chapel Hill, 189Joãozito é cheio dos dizeres interessantes. Dia desses todos chorávamos as pitangas quando ele anunciou “meu fundo do poço não tem mola, gente, no fundo do meu poço tem um ralo. Ou seja, quando eu chego no fundo do poço, ainda desço pelo ralo e entro pelo cano”, exagerou enquanto todos riam. E eu só conseguia pensar: o que tem lá, no fundo do meu poço?

Quando estou afundando, caindo, não costumo pensar muito nisso. A gente só consegue pensar em como foi parar lá, em queda livre. Uma resposta mais torta de quem amamos, um não que vem no lugar do sim que andávamos precisando, um ato ingrato, tudo vai alargando a boca do poço. Nossa insistência em negar o óbvio, nossa fé exagerada em quem não merece outra chance, nossos desejos vazios que alimentamos como quem enche uma peneira inteira de água. Burrice.

O que é que tem lá? Fico ali entretido com o que está ficando para trás, admirando tudo o que vou perdendo aos poucos, junto com a minha razão. Nem dentro, nem fora, mesmo quando estamos sofrendo, insistimos em não estarmos presentes. A gente passa muito tempo admirando a queda, beijando nossos dias cinzas, reunindo as culpas pelo caminho íngreme e inverso do cair.

A gente alarga, cava, ensaia o salto, dança na borda, a gente pede pra cair e cai. Se pararmos pra pensar, no fundo de todo poço há uma verdade, que teimamos em negar, para a qual viramos as costas, como se fosse possível evitar o que se mantém desconhecido. De fato é terrível cair, mas a cada dia me parece mais certo que a melhor forma de sair do poço é entendê-lo. No final de todo poço há um reflexo de nós mesmos.

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Volcano

10. Old volcanoCalma, o que você vê em mim é calma e não desespero. Somente a calma, bruta e intacta dos vulcões dormentes. Há uma doçura inexplicável em esperar teu tempo, um certo consentimento, uma contemplação das suas horas se desdobrando vagarosamente. Eu estou mais presente, silente, do que muitos dos falantes, tão preenchidos da ausência de sentido.

À minha volta, paixões se assentam como lava que abraça as montanhas com o passar dos tempos. Que culpa tenho, se seu barulho interno não o permite ouvir, se sua pirotecnia não te deixa ver, se sou do tipo que sorri com discrição, mas só quando é verdadeiro? Sou uma explosão inversa, de silêncios que dizem, de toques que entregam, entrelinhas que não margeiam.

E enquanto o mundo se estilhaça, se mistura, se perde, se confunde, turbulento, eu tenho calma. Acusam-me de ser tudo o que não sou – Blasé, letárgico, apático! – E quanto mais me definem, menos estou presente. Acusem-me de tudo, menos de letargia. Que por dentro meu mundo é todo inteiro movimento.

Para me enxergar é preciso esperar que as cinzas durmam e que as pálpebras das chamas pesem e pesem, lentamente, como a ardência que desiste aos poucos de ser fúria, ser vulcão. Não me equacione, nem me reduza. Não se trata da ânsia de te ter por inteiro, nem do meu vício de ser sozinho. Meu amor é calmo e silencioso como os dois segundos que antecedem uma explosão.

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Signos

Kart Jack Barlow driving 1960 BucklerJá era tarde quando cheguei. Liz me recebeu de pijama à porta. Adoro usar as conexões mais longas dos voos para me reconectar às pessoas que amo e estão espalhadinhas por aí. Fomos até o armário grande do quarto pegar cobertores, e o que vi lá me deixou estarrecido. Aquele armário era impecavelmente organizado. Formatos, cores, uma obra de arte. Aquela não era a Liz que conheci na faculdade.

Liz era tão desorganizada que fazia uma pá com o braço, jogava os montes de roupas da cama no chão e simplesmente dormia. Quando ia receber uma visita importante (leia-se: rapazes), ela simplesmente atochava todos aqueles milhares de paninhos coloridos no armário, como se fossem seu amante. O que aconteceu com a minha pisciana preferida? Ela riu e me explicou que simplesmente tinha mudado.

Um corte de cabelo, uma dezena de quilos, a brancura dos dentes, essas coisas eu entendo, a gente muda mesmo, mas dá pra mudar quem a gente realmente é? Liz me ensinou que dá. Ela voltou a estudar e não só se tornou mais organizada. Ela se tornou a melhor nisso. Uma Organizadora Profissional. A gente vai se acostumando a aceitar o pior de nós e dos outros. Herança dos pais, sentença do signo, a desculpa que for: a gente vai se acostumando. Mania terrível.

Até mesmo as montanhas se movem, se transformam em outra coisa, desfazendo-se em migalhas e lançando-se ao vento. Até mesmo os rios mudam seu curso na lentidão dos anos, tornando-se um rio diferente um segundo após o outro, insistentemente. A transformação só é impossível até nós descobrirmos que ela não o é. A montanha é sua mente, o rio, seu coração. Mova-se na direção que quiser.

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amor, dez anos, tempo

Dez Anos

iwallfinder.com-series-no.-13-black-and-white-old-photo-27439Se há dez anos você me perguntasse onde eu estaria, quem sabe eu dissesse algo sobre viajar pelo mundo com meus amigos disfarçados de banda, quem sabe eu me visse sozinho em lugarzinho frio que só é alcançado pelos beijos dos barcos. Quem sabe eu mentisse, quem sabe eu pensasse que estaria cercando os meus filhos, como uma nuvem pesada tenta cercar os raios do sol.

Se há dez anos, eu me imaginasse, com um pouco mais de dinheiro e menos cabelos, com mais carimbos no passaporte, que amigos pelo mundo, com mais arrependimentos que saudades, eu teria feito tudo exatamente igual? Se há dez anos, alguém me perguntasse eu seria capaz de imaginar algo incrível como carros que voam, ciências que curam, corações que se regeneram após serem partidos?

Se há dez anos, eu olhasse para frente, e tentasse me enxergar como quem tentar firmar as vistas em alguém que ama na multidão, eu me enxergaria? Eu me reconheceria, depois de todas as mudanças da curva do meu riso, depois de todas as palavras ditas que fogem como lagartos, desautorizadas? O que você pensou que estaria fazendo hoje, dez anos atrás? Por favor, deixe-se orgulhoso, mas permita-se sempre se reescrever.

Eu estou me desfazendo, simplificando, desfarelando, me entregando à ordem natural de tudo o que desaparece. E eu não temo isso. Em algum lugar, todos nós nos eternizaremos. Se me perguntassem o que eu estarei fazendo daqui há exatos dez anos, não haveria dúvida, nem arrependimento: daqui há dez anos ainda estarei olhando pra você como quem encontrou a resposta para a dúvida que sempre teve.

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O Mesmo

omesmoAtenção, antes de adentrar ao elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar. Sempre rio internamente quando releio isso esperando pelo elevador. Lembro-me de um amigo que diz que morre de medo desse tal de O Mesmo de quem tanto falam. E tem gente que entra no raio do fosso sem que o elevador esteja lá para transportá-lo até outro andar que não o da morte? Pois é, parece que há.

Você mesmo, você aí, já saltou milhões de vezes no precipício, de braços abertos e um sorriso imenso no rosto. Você mesmo já mergulhou no poço fundo e escuro que por vezes pode se tornar o sentimento do outro. Você já amou e não pediu muito em troca, você já sonhou e não avisou ninguém, você já esticou os dois braços esperando que o outro enxergasse convite pra abraço.

A gente entrou e nem observou se o sentimento do outro estava no mesmo andar. Pobres de nós, todos tão perdidamente iguais. E para eles, elevadores solitários, que conversam sozinhos, que passam o dia contando seus ganhos e perdas, que sempre fazem o mesmo caminho, mas ainda acreditam que podem mesmo sair por aí voando, para eles, não há avisos pelo lado de dentro. Só este espaço frio que nasceu para ser cheio e depois vazio.

Quando eu te chamo, em meio à noite, não só estou pedindo que você venha me buscar, eu também peço que você me deixe entrar e ficar onde ninguém mais ficou. E é aí que quebro esse silêncio imenso, esse constrangimento do que há ou não haverá por dentro e te pergunto, ainda que baixinho, ainda morrendo de medo do seu não: nós estamos no mesmo andar? Porque eu já te adoro e adoraria que você sentisse o mesmo.

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amor, relacionamentos, tempo

Agendas

Vintage-photos-old-women-ice-cream-coneEu sei, você não tem tempo. Tempo que é o monstro dos meninos crescidos. Na correria dos dias, nas noites insuficientes, você não tem tempo para me olhar nos olhos. Sentado em seu carro que não anda ou encurralado nos vagões que desaprenderam a andar pra frente, você pensa em mim, por um minuto que seja? Eu penso muito nisso. Talvez seja a hora de você transformar sua vontade em parada.

E eu estou em todos os pequenos detalhes retorcidos da cidade, te admirando enquanto você corre por aí. Não sei se você teve tempo pra notar, que eu te amei na rebeldia dos pássaros que não respeitam faróis, que eu te esperei nas vitrines que são sempre verão, que eu chamei e que eu tomei seu santo nome, três, sete mil vezes, em vão.

Você chama por mim, nessas filas que crescem para trás? Eu temo que quando eu me torne prioritário pra você, já estejamos envelhecidos demais ou puxando de uma perna. Porque você bem sabe: o desamor vai deformando a gente. Mas eu sei: você não tem tempo. Minhas ânsias, meus medos, minha carência desmedida o tomam demais e eu não sei se posso mais me esgueirar por entre seus nãos, por entre os vãos que te sobram.

Você já parou pra pensar, que talvez olhando de pressa você não enxergue nada completamente? Que os meus olhos te olhando não sejam somente mais um compromisso. Que os meus dedos tranquilos não reconhecem limites. Que os meus beijos demorados, de tão apressados perderam sentido? Olhe pra mim. Só por dois segundos seguidos. Esse é todo o tempo que vai levar pra você notar que assim como o tempo que finge ganhar, você também tem me perdido.

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Esperar o Que é Raro

old-lake-photo(você pode ler ouvindo isto – http://migre.me/oTngu)

Andamos por uma hora. Dava pra ler a sorte na borra dos meus pés. Lígia guiava rápida pela mata, como quem guia as visitas até a cozinha de casa. Em certo ponto, às margens de um lago, parou e disse que estava bom ali – Aqui tem algum ninho, é isso? – perguntei olhando à volta. Fez que não com aquela cabeça branquinha e começou a regular a lente da câmera.

Explicou gentilmente, que a gente não procura um pássaro. A sua natureza é imprevisível. Ele não atende à nossa vontade – O máximo que podemos fazer é ficarmos bem confortáveis e esperarmos, abertos a tudo o que a natureza achar que nós merecemos enxergar – explicou Lígia esticando-se sobre o capim com as mãos fazendo um berço pra nuca.

Foram horas, até avistarmos um cisco no céu, rapidinho, incompreensível. E depois, mais um tempão para vermos uma família de periquitos, atravessando empolgados. Não havia ansiedade em mim. Lígia, que era quem queria fazer fotos de pássaros, não estava preocupada, por que eu estaria? Aproveitei minha cama gigante de planície para observar meus pensamentos, bagunceiros como uma família de periquitos.

Vai ver que o amor também é um pássaro, de natureza imprevisível. Um pássaro que não atende às nossas vontades e só se exibe quando quer. A ansiedade é toda nossa, a espera é toda nossa, a busca por tantas vezes insensata é todinha da gente. Deus sabe que eu não tenho saúde mental para me deitar e esperar que o amor bata à minha porta. Mas, vez ou outra, posso também me entregar ao exercício da entrega absoluta que é esperar.

De me sentir confortável com minhas próprias inseguranças, me esticar por todo o meu espaço, abrir os braços e esperar aquelas asas prateadas planando em voo sobre mim. Vai ver que o amor é uma espécie rara que migra fugindo do frio, que voa acima das nuvens, que reconhece a paz de um coração tranquilo lá de cima, como quem enxerga um lago. Minha vida inteira é um convite para que o amor venha se beber em mim.

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