O sentido das coisas

sentidoPor mais que eu já tenha respondido essa questão pra mim mesmo, sempre volto a me perguntar: para onde estou indo? Qual o sentido das coisas? Pelo que estou lutando? Eu gosto de ter certeza que não estou só sendo levado, só trabalhando para pagar as contas, só indo dormir para acordar. Eu quero ter certeza de que estou colocando, entre um dia duro e outro, um pouco de sonho.

Há dias, em que meu coração se acalma com a beleza. Das árvores, das pessoas sendo gentis ou carregando os filhos pelo braço na rua. Há dias, em que meu coração fica em paz quando vejo que meus desejos estão logo ali adiante, olhando pra mim. Em outros, ele fica quietinho quando me lembro que já vivemos histórias incríveis juntos. A cada vez que essa pergunta me surge, respondo com motivos diferentes, a mesma coisa. O sentido maior de estar aqui é viver, oras. Não biologicamente, mas viver, na intensidade máxima da palavra, buscando.

Viver é amar a pessoa errada com tudo de si, ao menos uma vez. É arriscar perder e realmente perder tentando ser livre. É aprender a levantar, é dar um jeito de rir de si mesmo quando for preciso. Viver é exercitar o afeto, ligar em horas inesperadas, fazer pequenos cartões e enviar pelo correio. Viver é mudar de ideia, é abraçar o inesperado, é se abrir para as novas sensações, é cuidar dos nossos sentimentos, é manter-se no prumo.

Certa vez, um sábio me respondeu que é bobagem procurar um sentido para a vida, quando já se tem cinco sentidos. A questão é saber destacar um sentido por vez. Há momentos que precisam ser cheirados, feche os olhos! Há dias em que você precisa sentir o gosto verdadeiro, faça silêncio. E depois experimente tocar, mesmo sem pretexto, os dedos cansados da sua companhia. Deixe-se tocar, não faça perguntas, sinta.

Sente-se para ouvir uma música que não conhecia. Quando tiver um tempinho, trate o músico de rua como um grande artista conhecido. Assista-o sem pressa, dê-lhe os parabéns, absorva sua melodia. Com o tempo, eu descobri que a gente se sente profundamente vivo quando faz os outros se sentirem também. Quando a dúvida vier, quando parecer não ter sentido, lembre-se que o sentido da vida é viver. Cabe a nós fazer com que esse verbo simples faça todo o sentido.

Nuca

História do CarnavalEu queria me enfiar na sua nuca. Ali, na prainha insistente que existe entre o seu pescoço longo e o mar turvo dos seus cabelos. Eu queria me enfiar lá, me fincar como se fosse verão. Eu queria chegar, me chegar pra cada vez mais perto, como moleque arteiro, se esgueirando pelos canteiros.

Eu queria ficar pertinho, bem pertinho da sua nuca. Até me encaixar, até me fazer caber no meio de cada nota, nas voltas do seu perfume, nas ondas do teu cheiro. Eu queria entrar nos seus pensamentos, ali, pela sua nuca. Eu queria invadir, pular a janela enquanto você estivesse distraída. Eu não queria passar pela lógica, pela culpa, pela racionalização exagerada. Eu queria entrar sem pagar ingresso, sem acordar seus demônios, sem alarmar o cachorro. De graça.

Eu queria entrar pela ponta dos pés, ir me encostando, quietinho, como um pombo. E eu iria me instalar ali, no meio das suas lembranças, como um objeto antigo que vai ficando, mudança após mudança, quase que esquecido. Eu queria chegar como quem já está. E eu queria ir embromando como quem se demora pra esperar a hora do jantar sair. Eu queria me demorar até morar ali.

Vai. Vai que você se distrai, vai que você nem percebe, vai que você me recebe como quem desiste de botar a poeira pra fora? Vai, vai que você até gosta, vai que faz vista grossa, vai que você aprende a gostar também de mim? Vai, vai que você me encontra, vai que você se assusta e logo em seguida me ri? Vai, vai que você me encontra e na pressa e loucura dos dias você acha que eu sempre estive aqui? Eu queria. Eu queria enveredar na sua nuca e nunca mais me sair.

Dois mundos

trilhosefloresblogNaquela manhã ela mentiu outra vez. Acordou e fingiu-se feia para o espelho, desanimada para o chuveiro, amargurada para o café não menos amargo. Mentiu e, ao virar a esquina, abriu um sorriso largo. Colocou música alta, deixou o carro e foi caminhando, como se tivesse outra vez quatorze anos e pressa nenhuma. Esse era um segredo só dela.

Lá fora, o ar limpava os pulmões, enchia o estômago outra vez de borboletinhas brancas. Babi queria viajar, queria rodar o mundo trocando de nome a cada nova cidade, queria sentir o sabor das coisas, queria se apaixonar outra vez, mas não podia. Seu mundo era outro, seu mundo era um só. Então, sozinha, ela brincava também de ser outra. Pintava sua antiga inocência, revisitava seus sonhos, seu humor abobalhado.

Os ombros cansados não conseguiam mais carregar uma mochila, já suportavam peso demais. Então, veja lá que sabedoria, sem poder se infiltrar em outro país, mergulhar em lagos de sal, caminhar sobre as dunas, sem poder alugar uma bicicleta para pairar sobre os campos floridos do Norte ou tomar um barco sobre o gelo do Sul, Bárbara se levava pra passear, ali mesmo nas redondezas da vida que tinha.

Bárbara mentia. Quando dizia que queria ficar, quando dizia que jamais se veria em outro lugar: ela se via, mas preferia não olhar demais naquela direção. Quando se olha já se começa a ir. Olhar é metade do estar. Eu não a culpo. Ninguém poderia. Mais difícil que fugir, é se fixar. Partir é fácil, é óbvio é natural de nós, quase fisiológico, como respirar. Nós nascemos pra ir como um rio, como a luz, como o ar.

Ela nasceu pra ir, mas escolheu ficar. Ficar que é heroico, vencer a rotina é que é majestoso. E depois de brincar de ser Maria, Karol, Marina ou Letícia, minha Bárbara voltava a ser só minha. Viajando por toda a linha do meu abraço largo de domingo, mergulhando nos meus lábios para esquecer o dia, deitando sobre as dunas das minhas costas no sofá. Desvendava as trilhas dos meus cachos, tentava aprender a linguagem antiga do meu olhar. Aventura mesmo é decidir ficar e aceitar ser o mundo inteiro também do outro.

 

Chegando

translaçãoEu queria que você morasse nesse pequeno instante, nestes exatos três segundos que estou vendo agora. Eu queria que você se deitasse no tempo, como quem descansa à sombra de uma quaresmeira florida, sem pressa de seguir. Eu queria você da forma como te vejo agora, pelo resto de uma vida: chegando.

Eu queria me manter curioso, descobridor de você, buscando pistas entre as palavras. Meu mistério eterno, quebra-cabeça irredutível, charada insolúvel, eu não queria jamais te entender. Queria me manter ignorante, bobo, com as mãos frias, ainda que suadas, quando me chegasse você. Eu te queria assim, se entregando aos poucos pra mim, roubando-me pra você.

Eu queria você em um movimento eterno de translação, desenhando meus contornos, expandindo minha órbita, vigiando a minha loucura, alimentando-a. Eu queria você sempre ao alcance do começo das minhas mãos. Eu queria te pausar agora, enquanto seu sorriso se abre quando me vê.

Eu queria guardar, não a primeira, mas a segunda vez que te vi. Foi na segunda que eu soube que queria morar ali por alguns anos, à beira do lago dos seus olhos, à margem do seu coração. Eu queria continuar acabando de te conhecer, ansioso pela sua volta, com uma vontade incontrolável de te encontrar pra não saber o que dizer, tropeçar nas palavras. Eu queria desacelerar o tempo pra fazer durar a doçura que é te receber em mim.

Cavalos-marinhos

natParou e fincou os pés na areia, como se jamais fosse sair dali. Olhou demoradamente para as ondas acinzentadas. “Você não vai entrar, Natan?”, esticando o olho. “Não, pai. Eu não gosto de entrar, eu gosto de olhar”, respondeu o homenzinho.  Acho que nesse dia, Natan resumiu, sem querer, minha questão de uma vida inteira. Assim me parecia o amor: uma força incrível da natureza, majestosa e perigosa, que eu preferia observar da areia, sem ter que lutar contra as ondas.

Quando caminhávamos nas pedras, Natan puxou-me as pontas dos dedos, chamando a atenção, sem querer fazer barulho. “Olha aquilo, pai!”, eram cavalos-marinhos. “Um dia, Natan, eu tinha quase a sua idade e ouvi uma história que jamais saiu de dentro de mim”, colocando-o numa pedra mais alta. “Era sobre uma corrida. Uma corrida de cavalos-marinhos. Mas, eles não competiam pra ver quem chegava primeiro. Competiam pra ver quem cruzava a linha de chegada por último”, olhando para aqueles olhinhos esbugalhados.

Natan amarrou os beiços. Não queria interromper, não a mim, mas aos cavalos da história. “Você deve estar pensando que isso não tem a menor lógica, não é mesmo?”, a cara dele confirmava que sim. “Mas você precisa entender que os cavalos-marinhos estão sempre sendo levados pela correnteza. A competição não é sobre agilidade, mas sobre força, sobre quem se mantém por mais tempo acima da ansiedade”, aquele finalzinho ele não pegou.

Como ensinar pra um guri de oito anos o que era ansiedade? “O que é ansiedade, pai?”, pronto, caminho sem volta. Fui tentando. Ansiedade era perguntar se tava chegando do banco de trás do carro, era querer abrir todos os presentes logo duma vez no dia do aniversário, era ficar com medo de tirar nota ruim na prova de geografia, ansiedade era querer que o tempo soprasse a resposta do enigma, roubasse no jogo, piscasse um sinal com o olho. E ela vai arrastando a gente para futuro como uma corrente do mar. É preciso ser forte para viver o presente.

Não sei se o Natan entendeu completamente. Ele estava mais preocupado em observar os bichinhos, em vê-los graciosos, de um lado pro outro. Natan ria. Virava o corpo pra trás, segurava na barriga e ria mais. Ele estava mais preocupado em amar cada nova descoberta, como quem ama o mar de fora, sem tocá-lo. Natan não estava preocupado em entender os contextos, nem ler os futuros. Natan estava compenetrado em escrever o presente.

Amor à primeira vista

primerAos quinze anos, ela nunca tinha olhado para os lados, nunca tinha notado nada que lhe chamasse a atenção nos garotos da rua. Só mesmo aquela implicância cotidiana. Kauê meio que destoava porque seu sorriso era diferente de tudo que ela havia conhecido. Era dividido em três etapas: primeiro, seus lábios recuavam só um pouquinho, se abriam ao fundo para os cantos, para então derramarem um sorriso lá frente. Três etapas, como uma onda de mar.

E assim foi: Kauê tinha um sorriso, João tinha uma moto, Guilherme era engraçado, Diogo a deixava louca. Kauê durou alguns meses, João dois anos, Guilherme permaneceu por sete e Diogo a deixou louca por cinco anos, quatro meses e dezoito dias. Ela estava ali, me contando isso, com um ar de quem caminhou a vida inteira e não chegou aonde deveria. “Acho então que eu preciso de alguém que goste de mim como eu sou…”, desenhando com seus hashis no shoyu. “E como você é, Juliana?”, me meti.

E ela se abriu em um silêncio tão grande que saiu engolindo todas as mesas em volta, todas as pessoas andando na rua, até a esquina, todo o bairro e a cidade, como a sombra pesada de uma nuvem. Juliana percebeu que não sabia nada sobre si mesma. “Muito prazer, Juliana”, completos estranhos. Em meio àquele turbilhão de sentimentos alheios misturados, de amores emendados, de histórias seguidas, de caminhos acompanhados, Juliana nunca tinha ficado sozinha. E a alma da gente gosta de conversar com privacidade.

Quando sozinhos é que o coração vem contar segredos. Não se arruma a casa ainda com os convidados da festa dentro. A casa é arrumada no silêncio do dia seguinte, com sua música preferida, sua roupa folgada, devagarinho, de um canto pro outro, até a gente ter de volta os nossos espaços. Juliana percebeu que tinha chegado a hora de começar um novo relacionamento, dessa vez consigo mesma. Amor à primeira vista.

Ímpar

bolismoEu te amo. Digo de uma vez porque já esperei demais para dizê-lo. Digo sem quase nenhuma certeza. A única que carrego comigo é que não o posso deixar seguir sem saber. Eu o amo, mesmo que não o mereça, mesmo que já tenha errado demais. E eu não posso deixar que você me deixe sem saber quem sou.

Agora que você vai sair, eu nem sei. Faz tanto tempo que você completa as minhas frases, escolhe as minhas camisas, me acorda com o seu ar, me beija com os lábios afobados, famintos. Faz tanto tempo, que eu nem sei como é ser ímpar. Parece que nós nascemos em dois. Parece que você sempre esteve aqui, vigiando a minha falta de jeito com as coisas. E agora você parte e me reparte em dois.

Um dia, eu encostei em você e me demorei. Um dia, eu descasei nos seus olhos e adormeci. Foi assim, como adormecer ao contrário, como viver do avesso, de um jeito confuso, torto e bom. Com você parecia ter sentido. E agora você sai. Não demora a ir, não me deixa ver você se apagando como chama miúda, como dia que finda, como criança que desacredita. Não demora ir, que cada recolhimento teu é uma angústia, um embrulho, uma dor que homem nenhum no mundo jamais conheceu.

Me apavora imaginar que o seu cheiro vai se esvaziar dos lençóis, dos travesseiros. Me aterroriza imaginar que um dia eu vou ter uma precisão gigante de você, uma angústia doida de te contar, uma saudade comprida, seca, calada, mas você não vai mais estar. Um dia, eu vou querer ouvir teu riso, tuas palavras bem escolhidas. Que um dia eu vou dizer outra vez que te amo e você não vai responder.