Promessas às Flores

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promssCheio das promessas que não nasceram de mim, farto de não poder cumpri-las, decidi inventar eu mesmo minhas próprias promessas. De hoje em diante, te prometo meus melhores pensamentos, prometo lembrar de ti diante de tudo o que é belo, prometo te fazer rir nos momentos mais inapropriados, prometo te defender do tédio, prometo me apaixonar cada dia um pouco mais.

Prometo te pedir pra ficar comigo tantas outras vezes, com o mesmo frio atrás do umbigo que senti da primeira vez. Então, fica comigo no mar, na montanha menina, na calma das rosas, em meio aos zumbidos da cidade que nunca dorme. Fica comigo e depois descansa, que eu te prometo lugar cativo sobre o meu braço e também embaixo dos meus dedos que são menos perdidos quando embaralhados nos teus.

Então prometo te descobrir de igual interesse como se tivesse vivido dormindo pelas últimas duas décadas. Para ti, meu olhar será sempre o de acordar: curioso, fascinado, aquecido. Segue comigo que eu te prometo ser paciente em suas longas dúvidas no supermercado, o que nem é tão difícil, nada me diverte mais que te olhar distraído. Prometo beijar suas pálpebras pra espantar os maus espíritos e sussurrar no teu ouvido – minha calma é contigo.

Te prometo tempo pra se acostumar com minhas manias, te prometo a verdade, sem perder a candura. Te prometo os sonhos que tenho tido contigo, ser a tua família dos seus domingos e a asa direita que passeará nosso filho. Te prometo minha fúria, quando te defender for o meu maior chamado. Te prometo sem culpa, sem medo de estar lançando rasas incertas. Cada beijo que te entrego é uma promessa que o tempo escuta, o destino guarda e que a mim também me prometo.

Dos Rituais Que a Gente Carrega Por Dentro

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arsenic-and-old-lace-10Naely encostou-se em sua xícara de chá e aquele pedacinho de ferro brilhou. Era uma aliança. Estava noiva. E eu fiquei ali encantado pensando – quem é que fica noiva hoje em dia? As pessoas se conhecem e partem logo pro abraço. Na urgência de ser feliz como quem faz um check-in, a gente anda desqualificando os rituais. Não chega a ser motivo para se preocupar: a beleza dos rituais está no fato de que sempre há tempo para ritualizar o que já parece tão banal. Os melhores rituais, a gente carrega por dentro.

Ela sabe que você a ama, mas dizer é importante e demonstrar é sagrado. O ‘eu te amo’ é a oração dos amantes. Ele sabe que você está feliz ao seu lado, mas agradecer é sim imprescindível, enquanto sorrir for um rito sagrado, pros dois. É preciso brindar, sempre, pelos motivos mais incríveis ou bobos do mundo. Eu brindo até com o galão do bebedouro se me deixarem. Brindo à vida, à serenidade, ao som da risada dos meus amigos, ao amor dos meus pais, a nós, infinitos em ritos de comunhão.

Para aqueles que são amigos há uma década, ainda é tempo de ritualizar esse cuidado mútuo. Que tal um troféu? – Melhor Amigo de Uma Vida Inteira – em adoráveis letras garrafais numa placa acrílica. Reconhecer quem reconhece em você o melhor: tire um tempo também pra isso. Ritualizar o amor nem é casar. Não precisa de nada disso – igreja, cartório, bufê, flores que não serão cheiradas. Melhor do que casar é se comprometer. Para ritualizar basta fechar os olhos, os dois, juntos, de frente pro mar por cinco segundos e se deixarem abençoar pelo amor um do outro. Eu vos declaro, cúmplices – diz o vento baixinho.

Criemos nossos próprios rituais de amor, de fé, de reconstrução. Celebremos os encontros, as perdas que não fazem falta, a saudade que carregamos, os amigos, as pessoas que serenam nossos corações. Que a vida seja um ritual adorável de agradecimento, porque, em meio a todas as milhares de possibilidades infinitas do universo, nós, tão pequenos e desconexos, tão docemente atordoados, flanadores natos, tivemos a sorte de nos encontrarmos em igualdade de espaço, tempo e de sentimentos.

Tenha Um Amigo Maior do Que Você

Evstafiev-old-believers-oregon-usaTenha um amigo que seja maior do que você. Não somente pelos braços mais compridos que nem mesmo precisam se alargar para te abraçar. Nem mesmo pelas ciências da vida que ele já recita como um poema curto de Adélia Prado, ciências que você ainda tenta assimilar, com certa dificuldade. Tenha um amigo de alma maior, coração mais largo e olhar mais sereno que o seu.

E ele, em muito vai lembrar a candura de seu pai, o humor preocupado de sua mãe, e pouco a pouco também se tornará sua família. E mesmo nos dias em que ele se sentir menor e reivindicar seu colo, você ainda estará sendo protegido por ele. Há gente que cuida da gente num caminho inverso quando deitam na paciência do nosso colo, quando choram no mirante de nosso peito, quando a sua simples presença nos torna também um pouco maiores.

Tenha um amigo que seja maior do que você. Que lhe ensine a ser generoso com miudezas como te emprestar um livro que você nem pediu ou te levar para tomar café quando você estiver perdido. Que lhe mostre a dignidade desculpando-se quando você nem estava exatamente bravo e lhe perdoando exatamente nos momentos em que você não poderia ser tão mais errado.

E a partir do respeito imenso que você recebe dele e do respeito legítimo que devolve de volta, estará criado um adorável círculo vicioso, como as vasilhinhas que viajam de uma casa para a outra. Nunca vazias, sempre comadres, refil eterno de um agrado novo, marmitas fartas de gratidão e amor. Tenha um amigo maior do que você. Para cultivá-lo como um campo florido que se alastra por quilômetros: delicado e imponente, simples e misterioso, valioso e aberto para quem quiser ver.

Amor em mão única

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road_to_borrego_tmx100_d76_n1_sm(você pode ler ouvindo isto http://migre.me/pn5td)

Imagine um país, do qual as estradas só partem, do qual os carros se afastam até sumirem na fronteira. Imagine um porto em que navio nenhum atraca e os que de ali saem, foram ali mesmo construídos. Feitos para partirem. Imagine um país, para o qual ninguém volta, do qual todos os filhos mais jovens fogem, seduzidos pelo mundo distante.

Assim somos, estradas de mão única, mares que ofertam, lares decorados de paredes cheias de saudade. Assim somos enquanto amamos muito mais do que nos amam de volta, quando perdoamos sem perdão em troca, quando confundem nosso silêncio momentâneo, nosso respeito que escuta, nosso interesse que cuida, com a não necessidade de também dizer. Pode ser precipitado da parte dos outros pensar que temos tudo aquilo que oferecemos em abundância.

Então, imagine um país, com estradas que partem e voltam, em duas mãos. E depois um porto, de onde a curiosidade dos meninos e a saudade das moças possam acenar para os carregamentos que chegam. Imagine os filhos do amor que lançamos voltando, repatriando-se, repovoando a nossa fé. Mas nada disso ocorre. Nem estrada, nem porto, nem nenhum retorno. Não por hoje.

Mas amanhã, nosso amor, que tão ingenuamente aprendeu a se recompor, não fechará as fronteiras por onde jamais se entra. Nosso amor alargará as pistas e lançará dezenas de novos navios ao horizonte do mar. Nosso amor desenhará também com luzes uma pista de pouso, de onde, a princípio só se vai decolar. Um dia alguém há de ver toda uma frota partindo e vai querer saber onde aquela rota contínua vai parar. Um dia alguém descobre, no começo da estrada que parte da gente, um lar.

Formigas

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ooDois homens brigam na calçada, uma velhinha resmunga pela demora do seu café, um bando de cães vagabundos se amatilham, centenas de carros costuram a avenida, o viaduto, o túnel, em seis diferentes direções. Esse mundo, como nós conhecemos, está um caos, mas ainda posso me concentrar no som doce do seu ar dormente.

As buzinas competem carentes, dois rapazes discutem por causa do filme novo do Christopher Nolan, na banca de jornal, alguém ensina uma direção errada para o senhorzinho careca, na academia os pesos caem, um liquidificador canta na esquina. Esse mundo, irritante como sabemos, está cada vez mais barulhento, mas ainda posso escolher ouvir só o que há em sua órbita adorável na manhã de hoje.

O ladrão corre rápido, num exercício poético de liberdade, junto a ele, correm os pombos, os olhares, o alcalino dos skates na direção contrária. Esse mundo está mesmo perdido, mas por hoje só me distraio com suas cócegas inconscientes, que me fazem rir quase calado. Seus fios emaranhados de sempre sábado, têm o cheio do meu primeiro videogame. Acho que ninguém jamais entenderá quando digo isso. Em resumo, é algo incrivelmente bom que só eu compreendo, do qual só eu me lembro.

Alguém ralha que vai descer do ônibus, um mendigo guia seu séquito com uma garrafa de fanta batizada, uma criança mastiga distraidamente de boca aberta, os operários misturam a massa, a motoneta costura o trânsito, petulante. Enquanto costuro seus poros com a ponta dos meus sentidos, dos meus dedos, do meu lábio, do meu nariz curioso. Lá fora, o mundo inteiro está correndo, sem rumo, sem tempo, e é por sua causa que eu sei exatamente onde estou agora.

Controle de Qualidade

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qualidadeA fila para ver Picasso está virando o quarteirão. Um amigo me abandonou pelo caminho e outro se perdeu por ele, estava atrasado. A conversa do trio de moderninhos atrás estava interessante. Parece que o rapaz trabalhava numa grande empresa de entrega de flores – Controle de Qualidade – explicou ele – minha meta é identificar ao menos dez por cento de flores danificadas e descartá-las, diariamente.

E o que acontece se você não alcança a meta de descarte? – perguntei mentalmente junto com a amiga dele – Isso não acontece. Todos os dias, dez por cento vai para o lixo. Às vezes, eu preciso me esforçar muito, mas sempre encontro um defeito. É padrão internacional da franquia. Vai entender – difícil mesmo entender um troço desses.

Parei pra pensar que, quando mais novo, sempre que conhecia alguém, descobria antes todas as qualidades daquela pessoa. Em muitos casos até as inventava. Eu só queria que ela fosse perfeita, como eu sempre a imaginara. Com o tempo, comecei a trabalhar na mesma empresa do moço e a buscar com afinco os defeitos alheios. Bonitinho, mas fala muita bobagem. Inteligente e sem senso de humor. Engraçado, mas carente demais. Aquele ali é todo incrível, mas tem um dente tortinho que me incomoda um pouco.

Nem sempre estamos dispostos aos altos juros de se amar por um prazo mais extenso. Porque o amor nosso rouba a calma, nos leva o eixo, nos deixa a todos tão bobos. Porque o amor nos parte em dois, em cinco mil pedaços, e escancara as nossas maiores imperfeições, como a fome dos lobos. Porque o amor nos mina o sono e ocupa nossos pensamentos. E é aí, que alvos fáceis da covardia que ganha espaço com os anos, que ganha força com cada nova sensação de fracasso, é aí, que nos tornamos experts na imperfeição do outro.

Após uma hora esperando na fila para ver a exposição, conseguimos entrar. E graça toda da coisa estava ali, diante dos nossos olhos: Picasso, um apaixonado pela imperfeição, pintava suas mulheres tortas, rotas, deformadas, como que tentando desamá-las, enquanto na verdade as estava mais amando. O verdadeiro amor está em enxergar a beleza que há em cada pequena imperfeição do outro.

O Fundo do Poço

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"Old" Old Well, University of North Carolina at Chapel Hill, 189Joãozito é cheio dos dizeres interessantes. Dia desses todos chorávamos as pitangas quando ele anunciou “meu fundo do poço não tem mola, gente, no fundo do meu poço tem um ralo. Ou seja, quando eu chego no fundo do poço, ainda desço pelo ralo e entro pelo cano”, exagerou enquanto todos riam. E eu só conseguia pensar: o que tem lá, no fundo do meu poço?

Quando estou afundando, caindo, não costumo pensar muito nisso. A gente só consegue pensar em como foi parar lá, em queda livre. Uma resposta mais torta de quem amamos, um não que vem no lugar do sim que andávamos precisando, um ato ingrato, tudo vai alargando a boca do poço. Nossa insistência em negar o óbvio, nossa fé exagerada em quem não merece outra chance, nossos desejos vazios que alimentamos como quem enche uma peneira inteira de água. Burrice.

O que é que tem lá? Fico ali entretido com o que está ficando para trás, admirando tudo o que vou perdendo aos poucos, junto com a minha razão. Nem dentro, nem fora, mesmo quando estamos sofrendo, insistimos em não estarmos presentes. A gente passa muito tempo admirando a queda, beijando nossos dias cinzas, reunindo as culpas pelo caminho íngreme e inverso do cair.

A gente alarga, cava, ensaia o salto, dança na borda, a gente pede pra cair e cai. Se pararmos pra pensar, no fundo de todo poço há uma verdade, que teimamos em negar, para a qual viramos as costas, como se fosse possível evitar o que se mantém desconhecido. De fato é terrível cair, mas a cada dia me parece mais certo que a melhor forma de sair do poço é entendê-lo. No final de todo poço há um reflexo de nós mesmos.

Volcano

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10. Old volcanoCalma, o que você vê em mim é calma e não desespero. Somente a calma, bruta e intacta dos vulcões dormentes. Há uma doçura inexplicável em esperar teu tempo, um certo consentimento, uma contemplação das suas horas se desdobrando vagarosamente. Eu estou mais presente, silente, do que muitos dos falantes, tão preenchidos da ausência de sentido.

À minha volta, paixões se assentam como lava que abraça as montanhas com o passar dos tempos. Que culpa tenho, se seu barulho interno não o permite ouvir, se sua pirotecnia não te deixa ver, se sou do tipo que sorri com discrição, mas só quando é verdadeiro? Sou uma explosão inversa, de silêncios que dizem, de toques que entregam, entrelinhas que não margeiam.

E enquanto o mundo se estilhaça, se mistura, se perde, se confunde, turbulento, eu tenho calma. Acusam-me de ser tudo o que não sou – Blasé, letárgico, apático! – E quanto mais me definem, menos estou presente. Acusem-me de tudo, menos de letargia. Que por dentro meu mundo é todo inteiro movimento.

Para me enxergar é preciso esperar que as cinzas durmam e que as pálpebras das chamas pesem e pesem, lentamente, como a ardência que desiste aos poucos de ser fúria, ser vulcão. Não me equacione, nem me reduza. Não se trata da ânsia de te ter por inteiro, nem do meu vício de ser sozinho. Meu amor é calmo e silencioso como os dois segundos que antecedem uma explosão.

Signos

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Kart Jack Barlow driving 1960 BucklerJá era tarde quando cheguei. Liz me recebeu de pijama à porta. Adoro usar as conexões mais longas dos voos para me reconectar às pessoas que amo e estão espalhadinhas por aí. Fomos até o armário grande do quarto pegar cobertores, e o que vi lá me deixou estarrecido. Aquele armário era impecavelmente organizado. Formatos, cores, uma obra de arte. Aquela não era a Liz que conheci na faculdade.

Liz era tão desorganizada que fazia uma pá com o braço, jogava os montes de roupas da cama no chão e simplesmente dormia. Quando ia receber uma visita importante (leia-se: rapazes), ela simplesmente atochava todos aqueles milhares de paninhos coloridos no armário, como se fossem seu amante. O que aconteceu com a minha pisciana preferida? Ela riu e me explicou que simplesmente tinha mudado.

Um corte de cabelo, uma dezena de quilos, a brancura dos dentes, essas coisas eu entendo, a gente muda mesmo, mas dá pra mudar quem a gente realmente é? Liz me ensinou que dá. Ela voltou a estudar e não só se tornou mais organizada. Ela se tornou a melhor nisso. Uma Organizadora Profissional. A gente vai se acostumando a aceitar o pior de nós e dos outros. Herança dos pais, sentença do signo, a desculpa que for: a gente vai se acostumando. Mania terrível.

Até mesmo as montanhas se movem, se transformam em outra coisa, desfazendo-se em migalhas e lançando-se ao vento. Até mesmo os rios mudam seu curso na lentidão dos anos, tornando-se um rio diferente um segundo após o outro, insistentemente. A transformação só é impossível até nós descobrirmos que ela não o é. A montanha é sua mente, o rio, seu coração. Mova-se na direção que quiser.

Dez Anos

iwallfinder.com-series-no.-13-black-and-white-old-photo-27439Se há dez anos você me perguntasse onde eu estaria, quem sabe eu dissesse algo sobre viajar pelo mundo com meus amigos disfarçados de banda, quem sabe eu me visse sozinho em lugarzinho frio que só é alcançado pelos beijos dos barcos. Quem sabe eu mentisse, quem sabe eu pensasse que estaria cercando os meus filhos, como uma nuvem pesada tenta cercar os raios do sol.

Se há dez anos, eu me imaginasse, com um pouco mais de dinheiro e menos cabelos, com mais carimbos no passaporte, que amigos pelo mundo, com mais arrependimentos que saudades, eu teria feito tudo exatamente igual? Se há dez anos, alguém me perguntasse eu seria capaz de imaginar algo incrível como carros que voam, ciências que curam, corações que se regeneram após serem partidos?

Se há dez anos, eu olhasse para frente, e tentasse me enxergar como quem tentar firmar as vistas em alguém que ama na multidão, eu me enxergaria? Eu me reconheceria, depois de todas as mudanças da curva do meu riso, depois de todas as palavras ditas que fogem como lagartos, desautorizadas? O que você pensou que estaria fazendo hoje, dez anos atrás? Por favor, deixe-se orgulhoso, mas permita-se sempre se reescrever.

Eu estou me desfazendo, simplificando, desfarelando, me entregando à ordem natural de tudo o que desaparece. E eu não temo isso. Em algum lugar, todos nós nos eternizaremos. Se me perguntassem o que eu estarei fazendo daqui há exatos dez anos, não haveria dúvida, nem arrependimento: daqui há dez anos ainda estarei olhando pra você como quem encontrou a resposta para a dúvida que sempre teve.

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