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Economia

Annex - Grant, Cary (Arsenic and Old Lace)_05Cheguei ao fundo do poço. Comprei um livro em alemão pelo simples motivo de que queria tê-lo. Eu não falo alemão. Futilidade momentânea, meu eu inteiro queria aquele livro, me vigiando enquanto perambulo pela casa. Assumidamente um descontrolado financeiro. E foi assim, aos farrapos, que cheguei ao Curso de Educação Financeira do Dr. Carlos Monteiro.

Uma das primeiras aulas falava sobre “desperdício residual de recursos”, que é quando a gente deixa alguns centavos para o caixa do supermercado, ou compra um plano de TV mais caro que nem usamos totalmente, ou apostamos dois reais na fidelidade daquele cafajeste, enfim, quando vamos perdendo dinheiro, um pouquinho todos os dias e isso ao final de um ano daria pra comprar um mini pônei.

Já parou pra pensar? Na quantidade de paciência que desperdiçamos com quem não significa absolutamente nada em nossas vidas? Os sorrisos amarelos que gastam tanta energia? O afeto que damos sem troco de volta? E se você somar, todas as pequenas grosserias, ainda suportaria aquela pessoinha tão miúda e gastadeira? E se você juntasse todas as noites em que não dormiu, não teria acumulado quilos de olheiras por quem nem mesmo sonha com você? A gente gasta e gasta sem ver.

Quantas vezes trocamos conversas engraçadas por lugares barulhentos? Amores verdadeiros por enganos passageiros? Carência por ansiedade e ansiedade por insuficiência? A primeira lição de uma vida saudável, emocional ou financeira, é saber o que realmente precisamos e o quanto realmente podemos gastar. Tem muita gente comprando livro em alemão para preencher as lacunas da própria história.

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Anti-pânico

Men_in_the_aircraft_cockpit_old_vintage_photoAfaste-se. Afaste-se lentamente para trás. Arraste um pé à sombra do outro, movendo-o na direção segura. Afaste-se, acalme-se secretamente para longe. Empurre-se, tire-se enquanto é tempo das vontades escuras onde se enfiou. Saia, calmamente, como quem transpassa as portas anti-pânico do lugar que incendiou.

Use do peso que o peito agora carrega, use sua cabeça imensa que não para de pensar, use seu corpo deformado internamente pela dor como um pêndulo e balance-se para longe de lá. Afaste-se. Afaste-se lentamente dos sonhos que você mesmo bordou, dos medos que você mesmo inventou, dos pecados que não são seus, nem de ninguém.

Afaste-se. Afaste-se e não leve nada. Tudo agora pertence a um lugar que já não tem mais nome. Que já não é mais lar porque não aquece, nem estrada porque não liberta, e nem mesmo campo porque não te alimenta. Afaste-se, como quem se afasta de um leão que dorme. Olhe-o fixamente, enquanto sente todos os músculos do seu corpo se doendo pra trás.

Um passo, depois o outro, afaste-se do título de dono do que não lhe pertence, do peso de completar o que não te completa, da insistência de tentar salvar o que te mata aos poucos. Afaste-se e olhe duramente por cima do ombro. Enxergue o que está atrás se fazendo à frente, enxergue que maior que toda a sua dor é seu horizonte. Afaste-se. Afaste-se lentamente para longe dele.

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Procura-se Um Amor

GUM-old-129854_17Procura-se um amor que adore pessoas mais por suas histórias que por suas conquistas. Procura-se um amor que seja feliz cercado de abraços por todos os lados, mas que também saiba navegar pelo espaço dos próprios pensamentos, sem culpa.

Procura-se um amor que goste de cozinhar para si. Desse jeito, em nossos jantares serei sempre companhia de um prazer que você já tem. Procura-se um amor que conheça bem os caminhos da doçura, os mistérios provocantes, os sabores da vida.

Procura-se um amor que entenda que líquidos são as melhores bases para diluir longas conversas. Chá, café, vinho, cerveja ou mesmo nossos beijos, que tudo seja pretexto para saber mais de você.

Procura-se um amor que seja paciente quando eu não conseguir sê-lo. Que perca a paciência quando precisar, que me mande ao inferno quando eu merecê-lo, mas que sempre me queira de volta, envoltos de um leve cinismo bobo das crianças, vazantes da culpa do outro.

Procura-se um amor que se debruce sobre mim quando precisar, como quem sobe nas pedras para ver o céu tocando delicadamente os cabelos ondulados dos mares, sem nada a dizer.

Procura-se um amor que convide com os olhos enquanto diz e que nade nos meus enquanto escuta. Procura-se um amor que tenha suas próprias manias, para que às vezes também se distraia e me deixe viver as que já são tão minhas.

Procura-se um amor que tenha dedos apaixonados por cabelos e que esses dedos abobalhados se percam em meio a eles, nas trilhas ancestrais do topo dos meus pensamentos.

Procura-se um amor que me faça rir como se eu fosse adepto de uma nova droga, ou dotado de um tipo raro de doença mental – Veja aquele pobre coitado, lá vai rindo-se. Dizem que ele sofre de um caso raro de Amorismo Cerebral – comentarão as vizinhas que brotam nas calçadas.

Não, não busco mais perfeição. Busco quem também suavize meus pesos e releve meus erros que se multiplicam sempre em tantos e tantos e tantos. Não, não mais me distraio tanto com os errados enquanto não me chega o certo. Quero estar com os olhos bem abertos e o pátio do meu coração bem limpo para convidá-lo ao centro, quando o encontrar por perto.

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apressar, jamais, mulher

Jamais Apresse uma Mulher

retro-womanJamais apresse uma mulher, em seu ato de vestir, cobrindo-se de quem se é. Cobrindo-se e descobrindo-se. Jamais apresse-a, em seu exercício fiel de se fazer mais bonita, pra você, pra si, pra quem ela quiser. Jamais apresse uma mulher enquanto ela escolhe seus saltos. É naquele instante em que ela também define de que altura quer te enxergar.

Jamais apresse uma mulher, que se pinta para a guerra, que esconde suas lágrimas, que demarca seus lábios como uma pista de pouso para os voos dos beijos, para a decolagem dos sorrisos. Jamais apresse uma mulher que redesenha os próprios olhos como quem diz – ei, você, olhe pra cá. Jamais apresse uma mulher, jamais aperreie seu silêncio. Ela só lhe dirá quando o coração quiser dizer.

Jamais apresse uma mulher que vigia seus próprios pensamentos disfarçados de louça, de roupa, de novela, de sexo. Jamais apresse uma mulher, flua em seu leito, nade em sua pele, mergulhe em seus medos, e deixe que ela se mostre, translúcida. Jamais apresse uma mulher, a prove, a sinta, como o mais doce dos passeios.

Jamais apresse uma mulher, em se sentir sozinha, em se sentir menos do que realmente é. Pare de perguntar se ela já está pronta. O pronto, que é tão definitivo, que é tão vigoroso em seu tédio, não combina em nada com ela. Jamais apresse uma mulher, que quando o assunto é ela, todo o resto sabe esperar. Jamais apresse uma mulher, em seu amor, em sua dor, jamais a deixe pra trás.

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Valse

old-oak-tree(você pode ler ouvindo isto http://migre.me/otg6X)

Há um lugar onde a minha calma mora, encostada na insistência de um carvalho antigo. Há um lugar onde as tempestades não me encostam e os medos não me podem encontrar. Há um lugar, à beira das águas mansas das lembranças, onda também descansam todos os meus sonhos de futuro contigo. Quando sou, o mais antigo dos carvalhos antigos, você se faz sombra e fica comigo, indicando-me as horas, guiando-me para a luz.

Há um lugar onde a minha alma brota, onde a minha fé aflora diante dos primeiros raios de luz. Há um lugar em que minha atenção difusa, minhas palavras confusas e minha memória pouca, não fazem diferença alguma. Basta que eu seja, basta que eu esteja ali e, logo, você também está comigo, dançando lenta à minha volta.

Há um lugar em que meus pensamentos te trazem de volta, em que a minha saudade te chama baixinho, em que penso em você e no instante seguinte, comigo está. Há um lugar, em que você se demora, em que suas histórias nunca terminam. Há um lugar em que sou só seu e não há conflito nisso. Nem de tempo, nem de existir, eu sou seu e só isso. Há um lugar em que existo para testemunhar você existir diante do meu olhar entardecido.

E nem o vento apaga a sombra tranquila, e nem a chuva dilui a sombra tranquila e nem a noite escura te apaga de mim. Quando estou mais perdido, quando estou com mais medo, quando todos os zumbidos da noite vêm me dizer, quando eu, o mais antigo dos carvalhos antigos, pareço-me também o mais sozinho dos sozinhos, é justo nessa hora que você me abraça por inteiro.

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Um Ano

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Nenhuma história de amor deveria ter data de validade. Ninguém deveria saber que, ali na frente, um dos dois pega um avião e cruza o oceano como se atravessasse a rua. Ninguém, jamais, deveria enxergar a saudade de trás pra frente. Todo amor deveria ser, por natureza infinito, em um horizonte que sempre se renova à frente, como o andar sobre a Terra, o navegar entre as estrelas, o mergulhar em nossos medos. Mas daqui um ano, é você quem me deixa.

Se mesmo sabendo disso, eu ainda quero ficar contigo? Pense comigo, em todas as manhãs que acordarei dois segundos antes dos seus olhos se abrirem, como lírios. Junte a isso, todas as frases engraçadas que só farão sentido para o nosso riso. O mar morno lavando nossos pés à noite na praia e depois, as tardes preguiçosas de domingo em que a gente pode vencer o tédio com algum jogo bobo, ou programa esquisito. As nossas mãos que se encontram e se assaltam mutualmente no balde de pipoca naquela sessão de cinema só nossa.

Leve também em conta, minha devoção desapressada em beijar seus ombros, em cheirar seus cabelos, em tocar com os meus as pontas dos seus dedos. Soma-se a isso, os segredos que você vai me contar baixinho, as horas incrivelmente longas em que eu te esperarei chegar pra dizer de uma forma diferente que eu te amo um pouco mais do que amava ontem. Junte também a minha impaciência que pede perdão, sua raiva que se desculpa, nossos erros que sempre se acertam.

Pense comigo, nos incontáveis passeios do meu desejo por sua pele, em nosso idioma nunca antes falado, a imperfeição milimétrica do meu corpo que abraça o seu, deitados em silêncio ou ilhados em uma rua inquieta. E se nos é possível viver tanto, porque não vivê-lo, ainda que por tempo determinado? Até a porta do seu avião se fechar, meu coração está aberto e meu amor é seu, ilimitado. O amor é a viagem mais incrível que se pode fazer.

(você pode ler ouvindo: http://migre.me/ooq2n)

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Sobre Tudo o Que o Amor Ensina

amorensinaCom o tempo ficou mais nítida, a clara missão de meus amores por aqui: além dos afagos largos, dos abraçados demorados, dos beijos que me guardavam, das horas insones caminhando pela rua, além de muitas das melhores lembranças que guardo, meus amores também me ensinaram, ao passarem por mim.

Então, não peço mais que fique comigo para sempre ou por pequenos tempos enfileirados. Fique, pelo tempo que precisar, pra me ensinar o novo e pra também aprender comigo. A ser maior como o som que se expande, menor do que a lança que fere. A aceitar com sabedoria a mania adorável de ser mutante, a beleza incontestável de ser constante, mas jamais permanente.

Me ensina a rir assim, com tudo de si, que eu te ensino desenhar golfinhos. Ensina-me a dançar, devagarinho, que eu te ensino a tocar uma canção do Caymmi. Segura a minha mão enquanto meus joelhos se equilibram tardios sobre os patins, que eu te ensino a ser mal criado em outro idioma. Você me ensina a escolher as roupas, eu te ajudo a perder o medo de nadar, de voar e de ser feliz.

Você me leva pra dirigir, e eu te ensino a direção de cada constelação silenciosa. Você me ensina a dormir calmamente, com minha têmpora na esquina do seu ombro, e eu te ensino a não ter mais medo de amar demais. Que a gente nunca, nunca pare de entender que a vida é troca e que há sempre algo pra aprender, nesse universo infinito e inesgotável, no exercício diário que é amar você.

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