Segundas

segundasAlguém me explica esse verdadeiro pânico às segundas? Essa segundofobia desenfreada, essa difamação exagerada de um dos meus dias preferidos da semana? É claro que eu adoro as sextas desencanadas, os sábados festivos e os domingos preguiçosos, mas é a segunda-feira a menina dos meus olhos. O que mais me irrita nas segundas é que me venham falar mal delas.

Segunda é dia de ação, de tirar os planos da gaveta, segunda é o réveillon da semana. Dia de mentalizar pedidos, estabelecer metas e acreditar com o coração. É preciso inventar simpatias, preces, manias adoráveis, é preciso enraizar a crença de que essa nova largada na corrida da vida será em direção à vitória, às conquistas.

Você vai ouvir muita gente dizendo que as segundas-feiras são as mães das dietas fracassadas, mas quase ninguém te diz que boa parte das dietas que deram certo também começaram às segundas. Não leve a mal, tem gente que reclama porque aprendeu assim, mas cabe a nós ensinar diferente para os nossos filhos. Temos uma segunda chance nas mãos.

Segunda chance para amar melhor, segunda chance para escrever aquela carta, segunda chance para cuidar de si, segunda chance para procurar um emprego novo ou dar sentido ao seu velho emprego. Segunda chance de ser mais gentil, mais humano, mais você mesmo. Segunda chance para resgatar um velho hábito que te fazia feliz, um velho amigo com quem não conversa há tempos, para transformar aquelas milhas na viagem dos sonhos. A vida é o que a gente conta sobre ela.

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Parem de Tentar Entender as Mulheres

mujeres2Loucas, destemperadas, instáveis, indecifráveis, as mulheres nunca estiveram tão doidas, meu deus. Querem. No segundo seguinte já não nos querem mais. Já não querem nem mesmo a si mesmas, uma orgia de quereres, de vontades que não se concluem, de medos que não se assentam. As mulheres, minha gente, nunca na história deste país foram tão deliciosamente desmioladas.

De tanto praticar, alcançaram a perícia esgrimista de coabitar em emoções. Já nem separam mais o instante de chorar do seguinte de rir. Choram e riem, ao mesmo tempo. Se aproveitam da boa relação diplomática entre os polos de seus super cérebros e choram e riem e mudam de canal, num só movimento. Elas podem te adorar em pensamento e te mandar uma praga por entre os dentes, elas podem se sentir extremamente solitárias, carentes e hilárias, não de você, mas de queijo, de doce, de estrada. Vai entender.

Deram pra gritar nas calçadas, nos portões, deram pra exigir de volta seus chips, como quem pega de volta a dedicação, o tesão, os ouvidos e os beijos sem ar que nos deram. Acabou a farra da entrega. As mulheres de hoje não se dão, se emprestam e depois tomam-se de volta. Não morrem mais de amor, não arranham as paredes. Fazer as unhas nunca custou tão caro.

As mulheres que gritam enquanto caladas, que se doem enquanto gozam, que se culpam enquanto se orgulham, essas mulheres jamais pediram para serem compreendidas, essas doidas varridas, não estão tentando se simplificarem, estão se esforçando pra ficarem ainda mais, só um tantinho mais, doidas. Certas elas, quando resolvido todo mistério deixa de fazer sentido. Parem de tentar entender as mulheres. Melhor que entender é compreendê-las entre seus braços. Pare de tentar resumi-las, pare de tentar encontra-las e vá com tudo se perder na loucura delas.

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Mãos Dadas

maosdNão solta a minha mão! – disse, apertando os meus dedinhos. Esperneei que eu nem tinha medo, que já era grandinho e ela me saiu com uma daquelas que me quebravam em dois: Eu sei que você não tem medo, mas eu tenho. Por isso pedi pra você não soltar a minha mão – sorrindo. Na época, me senti o garoto de sete anos mais forte das redondezas.

Andam de mãos dadas os pais, filhos, casais, amigos para espantar o medo de se perderem, ensinando para o universo o caminho de volta. As mãos, que nasceram prontas para se encaixarem, seguram, guiam, comunicam, pontuam frases inteiras, sem se soltarem. Um recorde mundial. Há um mundinho pequeno e doce ali, quando duas mãos mais parecem uma rosa, preguiçosa em abrir as janelas.

Jamais me esqueço do dia em que Clarice e eu dormimos com o dar de mãos estirado pra cima, como se fosse uma tendinha, como uma dupla de misses universo que empataram. Paz mundial. Os cotovelos apoiados no colchão de fofocas e os punhos grudados lá em cima, como que voando. A gente desmaiou de cansaço de tanto conversar, mas continuávamos grudados, numa quebra de braços em que o objetivo não era derrubar, mas manter em cima, no alto, senhores de sua própria fé. A gente desaguava um no outro.

Hoje, décadas depois, minha mãe ainda se atraca em mim para atravessar a rua. Exagera que a idade a está deixando cegueta. E eu adoro. Porque hoje, sou eu quem morre de medo de perde-la por aí. Com os anos descobri que a gente aperta bem forte a mão de quem ama muito mais por medo de nos perdermos de nós mesmos. Porque a gente é metade o amor que deu, metade o amor que recebeu, e o afeto é parte do que nos mantém inteiros.

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Meridianos

setembroSegue um para o Sul e o outro para o Norte é hora de honrar a felicidade que se carregou. Enxergar a grandiosidade de terem sido dois, terem em algum momento, estado com um pé em cada continente, para seguirem então, um em cada direção. Com os pulmões como se fossem asas que nasceram à frente do corpo, caminham fortes, cientes de que estão maiores, levando em si um tantinho um do outro.

Na primeira noite, uma estranha paz tomou conta. As lágrimas frias e tristes se tornaram primeiramente mornas e depois aquecidas, de uma ternura que jamais se vira. Uma ternura líquida, uma saudade antecipada que já era um rio, um oceano, que tanto unia quanto separava. Sabiam que nem todo amor acabado precisa morrer. Sabiam que a morte não é ponto que encerra, mas dois pontos que abrem espaço para a vida dizer.

Na noite em que um dos dois escolheu jogar seu corpo para trás para não se afundarem ambos, entenderam. Que os mundos são feitos para se desprender, expandir. Um era mundo de si e o outro um planeta calado. E enquanto caía, após soltar o pulso firme de seu amado, sentiu que estava voando e não desabando. Enquanto caía, não parecia que outro estava menor, mas mais precioso.

Sabiam que nem toda distância precisa ser saudade. Que nem toda ausência precisa ser solidão. Que todo o amor que tinham ainda estava ali, litorâneo por todos os lados, margeando suas distâncias, devolvendo-os para o centro de si. Enquanto caía pensava nele como um país distante onde gostaria de ter nascido, para o qual sentia que, embora jamais fosse voltar, sempre estaria ligado. Em outro tempo, em outra vida, vai ver que um foi casa do outro. Segue um para o Sul e outro para o Norte, na doce ironia de um mundo redondo.

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Cristais na Lua

cristaisluaApós dois anos encontrando dona Marise, quase sempre às tardes de domingo em nosso botequim preferido, recebi um convite para um almoço em sua casa. Sempre animada, pouco ouvi dela reclamando. E das poucas e raras vezes em que reclamou, falávamos de política ou da temperatura da cerveja. E só.

Naquela tarde, em um apartamento espaço no centro da cidade, finalmente conheci seu marido, de quem ela já havia me contado algumas histórias engraçadas. Casaram-se após muitos anos como amigos e confidentes, no hiato sentimental da viuvez dos dois. Ali, entre a salada de batatas e o ranhar com os cachorros, ouvi seu Celso contar que haviam descoberto cristais de água na Lua.

Marise sentou-se empolgada com os olhos grudados no queixo do marido, ouvindo aquela história de astronauta como se fosse uma garotinha de seis anos, e não sessenta, atenta. Bastou seu Celso se afastar para dar de comer aos dois poodles velhinhos, para a minha curiosidade sentar-se à mesa conosco. Mas, Marise, você não lembra que a gente conversou sobre essa história dos cristais de água na Lua, semana passada mesmo? E foi você quem me contou. Indaguei. Ela sorriu sem tirar as vistas do embaralhar das cartas com seus cantinhos cansados e me falou baixinho. E eu vou tirar dele o prazer de me contar algo novo?

Guardou, guardou seu ego embrulhado num paninho pra mais tarde e escutou a novidade antiga do marido. E assim foi, quando ele esqueceu a memória por aí e passou também a requentar os causos, a confundir os nomes, a esquecer as chaves. Marise me explicou que às vezes ele se esquece também que já disse que a ama e diz de novo e de novo, sempre em tom de novidade. Contou-me a menina Marise, encantada pelos cristais que alguém reencontrou e vai continuar encontrando lá na Lua.

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Poema

mujerAmava aquela mulher de tão perto, de tão dentro, que já não podia se entender como sendo algo que não sua continuação, um braço, um rio, um galho, um pêndulo, um poema que só faria sentido sendo dito pelos dizeres dela. Amava aquela mulher com uma loucura tão grande, uma necessidade tão urgente que não lhe restava tempo para perceber que a amava mais, muito mais que a si mesmo.

A amava tanto que não conseguia desenhar um pensamento, uma razão por vez, uma linha reta que apontasse pra ela. Seu amor, sua paixão, sua inlucidez lhe caiam sobre a têmpora, de uma vez por todas, todas as vezes em que pensava naquilo. Preferiu chamar de “aquilo”, para parar de dizer seu nome. Ele sabia, mas nunca disse o nome dela.

Aquele amor não lhe trazia paz, nem silêncio, nem promessa, nem quietude, nem virtude. Aquele amor não lhe trazia nada, só levava, e ele adorava. Aquele amor lhe comia os ombros, as pontas dos dedos, os calcanhares e ele, servindo mais e mais. Ele queria beijá-la até que ela tornasse lábio, cheirá-la até que tornasse poro, agarrá-la, toma-la para si até que se tornassem um, depois meio, depois nada.

Ele queria cobri-la, verte-la, ele queria sê-la de tanto que a amava. Ele queria cegar-se para não vê-la de tanto que a precisava. Em oposição a isso, precisava vê-la, vê-la e vê-la para ter certeza de que não estava perdido. E de tanto amar, e de tanto querer, decidiu jamais dizer, sequer uma palavra em direção a ela. Nem mesmo aquela mulher poderia carregar um amor daquele tamanho.

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Perder o Voo

perdervooA voz apática da comissária imitava algo próximo da irritação. Era meu nome, era meu nome que ela gritava fechando o portão de embarque. Alguém no assento 4C esticava o pescoço sob as poltronas; ele não vem? Enquanto isso, corria eu pela cidade lerda, como se o tempo pudesse ser alcançado e convencido de desistir. Todo esse tempo, eu quis te alcançar.

Meu amigo, Vinícius, ainda pode bradar um clássico: parem este avião! Mas você não para, nem faz curva seguida de meia volta, você não espera no ar. Após lançado, ele voava pesado sem olhar para trás. Cheio de razão. Levando consigo meu espacinho espremido, minha ausência física, meu medo quem sabe oculto de voar por aí.

Impressa logo abaixo das asas, minha carta confessa de demência para itinerários: estou sempre atrasado, sempre com a cabeça em outro lugar. Uma vez me disseram que isso nem é atraso direito, que é mais outro jeito de saber voar. No que você está pensando? Estou pensando em seguir em outra direção.

Eu não quero fechar meu abraço, como quem isola um adeus entre vírgulas, ou um medo, entre pausas suspensas no ar. Eu não quero chorar com a saudade ficando miúda, luzezinhas murchas da cidade que dorme sem mim. Mas eu jamais lhe culparia por me deixar. Quem fica, guarda o silêncio, quem vai leva a ausência. Você também está partindo sem mim.

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