London

black and white old usa past amin peyrovi children 1200x847 wallpaper_wallpaperswa.com_1Caio não queria parar. Dançava suspenso no ar. Naquela noite, haviam combinado de abandonar tudo, como o dia abandona a claridade para ser descanso, como as flores que abandonam as pontas dos dedos dos galhos para ser perdão, como quem abandona as próprias dores para ser descaso, para ser qualquer outra coisa que não dor. Naquela noite, Caio abandonou a si mesmo.

Caio não queria insistir. Meu poeta preferido girava como quem tenta misturar por dentro os ingredientes da própria alma, bagunçar a calma que assusta quando enche o peito da gente de silêncios. Como quem tenta dançar com o calor dos próprios ombros, Caio girava. E em volta de si tentava encontrar a si mesmo. Na demência do tempo, na ilusão dos erros, ao amanhecer de seus medos. Caio, meu amigo, há mais de dez anos, queria esquecer só naquela noite que seu tempo para tornar-se inesquecível estava acabando. A gente vive uma vida inteira para ser lembrado.

Caio não queria sumir. Costurar-se com as árvores preguiçosas das manhãs no parque, ou às luzes histéricas da máquina de músicas que embalava o último sozinho do bar. Caio não queria fenecer, diluir-se entre as curvas dos amores noturnos, confundir-se com os prédios tristes da Vieira de Carvalho. Na noite em que abandonamos tudo, em que suspendemos a nossa dor de existir como quem suspende um balão no ar, naquela noite nós não éramos ninguém, mas éramos tudo. Um para o outro.

Caio não queria chorar. Seu choro podia lavar sua alma e apagá-lo aos poucos, como azul das casas ralenta com as lágrimas do entrudo. Então chorei eu. Pelos sonhos que nos foram tirados quando medidos, quando acordados, quando vendidos, inclusive por nós mesmos. Mas hão de abrirem-se também em mim sorrisos. Se teu objetivo em vida é ser eterno, Caio, tenha-lo por cumprido. Quem já viveu na sombra calma do amor de alguém, não pode jamais ser esquecido.

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A pessoa que mora por dentro

early_radioIsso não vai acabar bem…Esse empréstimo vai amarrar as suas pernas de um tal jeito que você não vai ter como fazer mais nada. Vê o que eu tô te dizendo – falou a mulher de cabelos tingidos de vermelho, abraçada à bolsa na fila do consultório. Primeiro pensei que ela tinha toda a razão. Depois me senti invadido. Minhas finanças expostas ali na espera do dentista. Só então me toquei que eu não tinha feito empréstimo nenhum. Aquela mulher, sentada à minha frente, não estava falando comigo. Estava era falando sozinha.

Doidinha toda, comentei comigo, passando o paninho no vitral do meu teto. E quem é você, mocinho, pra chamar a mulher de doida? Você tem conversas homéricas sozinho. Opa, opa, opa! Respeito é bom e todo mundo gosta. Sozinho não, comigo. Você tem conversas e mais conversas comigo – ajeitou a pessoinha que mora por dentro. E depois que foi morar no centro antigo, onde o barulho dos carros, das ambulâncias e dos assoalhos de madeira rangendo, ofendem os silêncios, só fez ficar pior. Ou melhor nisso – diagnosticou.

Quando moleque não tinha lá muita paciência pra ladainha curta dos outros miúdos. Correr, esconder, atirar, salvar o mundo com os meninos da rua, vá lá, era até divertido. Mas salvar meu mundo interior constantemente explodindo era uma tarefa solitária, como é a guerra diária de todo herói de gibi. Por falar em guerra, há dias em que a cabeça faz bico e fica de mal do coração, pobrecito. Quando é o coração que vira as costas e deixa o juízo falando sozinho, eu logo sei: ali na frente só mesmo as noites insones pra colocarem alguma ordem na gente.

Tem gente que tem medo. E eu entendo bem isso. Não dá pra exigir elegância da pessoinha que mora por dentro. Desbocada, ela não mede as palavras, canceriana com ascendência em escorpião, Narcisa Tamborindeguy na percussão. Essa figurinha se torna facilmente um metralhadora de realidades, sincericida inveterada, alma desalmada que fala por dentro. Ela está sempre pronta pra revelar toda a sua verdade, seja no programa mais polêmico da tarde, na espera do dentista, no desvio de um olhar. Melhor conversar, melhor passar por doido que enlouquecer. Melhor falar, cada vez que você fala consigo, tem uma chance a mais de verdadeiramente se escutar.

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Islândia

islVigiava a água da fervura pacientemente. Não havia nada melhor pra fazer que esperar. Esperar alguma vida brotar dali em pequenas bolhas, esperar que sua própria vida brotasse de algum lugar. Há duas semanas foi jantar com Eduardo, após um dia comum de mensagens carinhosas a cada oito horas, como pílulas de afeto. Fizeram o pedido do que comer, comentaram a decoração confusa e após o primeiro prato, ele disse que a amava, mas que a iria deixar.

Desde então, sua espera é esperar. Que faça sentido, para que ela também possa dar algum sentido para si. Não houve briga, desentendimento, seus dias tranquilos eram costurados com pequenos silêncios e depois declarações de amor, homeopáticas. Aos poucos, ela entendeu que nunca o entendeu, nunca o alcançou de verdade. Aquela era uma daquelas situações da vida que a gente não compreende, só espera que passe, como passam as tempestades maiores que nós.

De nada adiantava também perguntar. Ela até tentou. Tentou até que ele disse qualquer coisa, que não queria estar ali, em um relacionamento. Não fazia sentido. Há mesmo gente que consegue amar e desamar como quem se muda de país? Como quem embala tudo e parte para a Islândia? Ele também não respondeu. A gente só pode mesmo embalar os próprios sentimentos, com a paciência de quem embala uma criança. O que ele sentiu, foi só dele e jamais seu.

Parou de esperar que todos os sentimentos se resolvessem, se coisificassem, estéreis. Há sentimentos que não aceitam sentenças, não desejam serem repartidos entre os gostos amargos ou doces da língua. Há sentimentos que passeiam para não serem pertencidos. Que não se terminam, que são absorvidos, ainda que não nos absolvam de nossa culpa.

Vai ver que ele sempre tenha sido estrangeiro e você nem notou. Falando outro idioma, mantendo seus velhos hábitos, com saudade de uma casa que você jamais poderia ser. Vai ver que ele só voltou. Voltou-se pra si mesmo. Pior que gente que parte sem nós, é quem fica mas não está presente. Não dá pra explicar o que nem a gente entende. Aceite. Aceite tudo o que a vida sabiamente te dá.

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Fechar os Olhos

bampw-black-and-white-gossip-hat-old-old-photo-Favim.com-41089Dia desses, meu vizinho Túlio, machucadinho por um término recente, perguntou-me se eu nunca desisti do amor. Eu sei que ele esperava uma resposta mais madura de mim. Túlio sempre esperava o melhor dos outros. Mas a verdade é que respondi que sim. Contei para Túlio que eu desisti do amor, não uma, nem duas, mas todas as vezes em que fui ferido por ele, ou pela distância dele de mim.

-Quem não desistiu de mim foi ele, Túlio – fazendo-o rir, curtinho. – O amor confia em nossa fé quase infantil, de que o mal vai embora se a gente não olhar pra ele. Na primeira noite em que me senti verdadeiramente sozinho, pensei que jamais ia me sentir preenchido por dentro outra vez. Parecia que aquele buraco, aquela ausência côncava, misturadas com o meu choro estavam causando uma erosão interna. Drama, eu sei.

Naquela noite achei que ia morrer sem ar. Eu nem tinha dez anos direito, por isso fechei novamente os meus olhos. Quase vinte anos depois, descobri que há mais probabilidade de morrer atravessando a rua que de amor. Dado deprimente. Calma, Túlio. A dor não passa, quem passa é a gente, quase despercebidos. Cúmplice de todas as outras dores, amasiada a tudo que não foi dito, ela tenta se aproveitar de nossa aparente falta de fé no amor, para se acostar. Ela também não desiste de nós.

Mas o tempo, em troca dos tufos de cabelos, tem me trazido também certas novas certezas. Que não há razão para me sentir vazio com o espaço em branco no travesseiro ao lado, ou com as escovas de dente que se entreolham constrangidas, nem mesmo com as sandálias vesgas que ninguém vai corrigir ao pé do sofá pra mim. Sozinho, sim. Vazio, pera lá.

Quando o amado se esvai e a dor senta no peitoril, todo o espaço que parece se tornar cheio de vazio na verdade está preenchido dele, da fidelidade dele, da constância dele, da devoção do amor de permanecer em mim. Quando a gente não olha só pra fora, abre as vistas pra dentro de si, Túlio. Fecha os olhos um pouquinho que a dor passa pra bem longe e o amor passa outra vez por aí.

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Ter Razão

Old_timer_structural_worker2Há dez anos não via Edgard (a gente precisa dizer esse “d” no final ou ele fica antipático). Atravessei a cidade para passar duas horas com ele e Miguel, marido dele, durante uma conexão do voo que fariam de volta para Campo Grande. O amor adora essas pequenas exaltações. Estar realmente junto é uma dádiva em tempos sem tempo, em que o encontro não exige mais quase nenhum esforço. Não exige, mas adora.

Edgard continua com aquela mania adorável de acertar os óculos colocando o dedo indicador entre as lentes e empurrando devagarinho. Ali estava meu amigo, agachadinho atrás de um cacoete conhecido. Quando me lembro da gente, há uma década, não me veem à mente exatamente e somente boas lembranças. A gente brigava o tempo todo. Dois cabeças-duras, um par de corações moles.

Fiquei surpreso ao saber que ele e Miguel já estavam juntos há sete anos. Não parecia um casal de sete anos ali naquele grude, falando miudinho, olhando um pro outro em deleite. Parecia que tinham acabado de se cruzar na escada rolante: um subindo e outro descendo, quando se apaixonaram e decidiram seguir a mesma direção, para cima ou para baixo. Surpreendente. Quer dizer, é claro que eu acredito em todas as possibilidades do amor, mas precisamos admitir que as relações andam muito confusas. Amar nos dias de hoje virou um grande salve-se quem puder.

Chegando em casa, não aguentei, liguei. Edgard? Eu não vou dormir se você não me contar…sete anos?! – Ele riu e disse que sabia que eu iria ligar – Sabe, quando a gente embrulha os sentimentos com alma, não faz mais tanta questão de ter razão. Esse é o segredo: a razão pela qual tanto briguei, a razão que sempre fiz questão de ter, só apareceu mesmo quando ouvi aquela voz pela primeira vez, a voz do Miguel. Eu prefiro tê-lo a ser rei do meu orgulho. Eu prefiro ter-nos – Edgard conseguiu ali algo que perseguiu por mais de dez anos: me calar. Que a vida seja vivida para se ter razão, razão de ser, nessa jornada tão confusa de sentidos.

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Para Quando Noah Partir

noah2Querido Noah, acordei mais uma manhã sem o seu braço magro sob a minha cabeça. E o buraco que havia ficado no lugar dos meus pensamentos, amanheceu um pouco mais raso, como um lago que foi transposto. Eu entendo, claro. Entendo sua precisão de ir, sua falta de ar no laço dos meus abraços, seu mundo gigante e delicado, seu medo de não poder viver mais sem nós que ironicamente o levou a nos deixar para trás.

Não o cobro, não o julgo por não ficar um pouco mais. Há pessoas que precisam seguir, que precisam medir o mundo com os próprios pés e sonhos. Também tenho meus modos de ir-me. Noah, seja cuidadoso com o que mais amo. Seu mundo que é tão grande e não me cabe é mais fácil para se perder. Não acho que você esteja preocupado com isso. Coma os horizontes com as mãos. Eu também amo isso em ti. Seja cuidadoso com tudo o que amo em você.

Hoje percebo que te entendo melhor do que a mim mesmo. Como um pescador que esmiúça as ondas, observando-as por horas e horas, mesmo depois de ter passado toda a madrugada sobre elas, toda uma vida em seu sal. Toda a volta daquele homem se volta para o mar. Assim também fui eu, à sua volta, tentando entender suas marés, suas turbulências, suas funduras, seu poder sobre mim. O meu amor por ti sempre foi tão e só meu que, de fato, te amar independeu do seu amor por mim. Como um dom antigo, uma prece que não se destina, satisfeitos por existir.

O pescador não exige que o mar o reconheça, Noah, embora só encontre seu próprio sentido diante de suas ondas. Não pela sensação de ser pequeno, nem pela necessidade do que é alimento, tampouco o desafio de resistir: o pescador olha para o mar porque entende que faz parte daquilo e aquele, se preenche de sentido com parte de si.

Assim também carrego a preciosidade de te amar comigo. Eu realmente não posso esperar, Noah. Há muitos e tantos outros mares dentro do mar para descobrir. E, em cada um, provavelmente encontrarei vestígios de quem sou, sem jamais deixar para trás quem me tornei enquanto fui todo contigo.

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Van Gogh

leadFicamos ali parados, de frente para o Passeio ao Crepúsculo de Van Gogh. Túlio comentou que não parecia um passeio. Parecia mesmo é que estavam perseguindo uma galinha, aquele borrãozinho no canto do quadro. – Tá vendo? – Ideias desconexas não eram raridade naquele magrelo, mas seu plano mais recente, confesso, me deixou intrigado. Túlio me contou que estava cansado de novas investidas no amor.

Andei pensando, vou reatar com alguma das minhas ex, ainda não sei quem, estou vendo as possibilidades – sem tirar os olhos do borrão na tela. Eu ri, primeiramente. Vi que era sério, virei o corpo todo pra ele. – Isso é sério, não é? – Eu estou cansado de contar a minha história. Já contei tantas vezes que não aguento mais. Você não sente isso, esse cansaço? – sorrindo cínico para a galinha. Sempre ouço as pessoas falando de como é difícil se desprender do passado, deixar alguém pra trás e seguir de cabeça ereta. Mas o Túlio, o Túlio não. Ele queria ir à contramão de tudo isso. Ele queria voltar, pegar alguém pela mão e dizer: ei, vamos tentar algo totalmente novo, de novo?

Por muito tempo, algo que sempre me encantou nos relacionamentos, era realmente contar a minha história: de onde vim, como são meus pais, o que eu gosto de fazer aos sábados à tarde, que temperos detesto, que músicas escuto no caminho pra casa. Ser descoberto, ali, nas primeiras impressões de cada nova relação, era uma oportunidade de me reenxergar e, quem sabe, me reescrever um pouquinho. Mas de fato, Túlio tinha alguma razão sobre a falta de paciência que a gente adquire com tempo em ser descoberto, como quem preenche um cadastro das lojas Marisa.

Eu não queria uma aprovação de cadastro. Eu queria ser descoberto com dedos, beijos, presságios de sonhos. Descoberto em sabores, em pequenas impressões, no desejo que sussurra mais do que diz. Eu queria que me desnudassem, que me arrancassem a roupa. Não que me pedissem educadamente para tirá-las e dobrá-las. Se seu plano dará certo? Bom, não sei. No amor e nos borrões de Van Gogh tudo é possível. Menos que aquilo lá seja uma galinha. Não importa o que Túlio me diga.

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