Dormir Junto

dormirjuntoVocê podia ficar só mais esta noite. E dividir comigo algo mais íntimo que o beijo, mais íntimo que o desejo, mais íntimo que o silêncio imenso entre duas pessoas que já não se conhecem direito. Você podia ficar só por esta noite e dormir comigo. Este é o estado máximo da entrega mútua. Quem dorme junto encosta a alma na calma do outro.

E eu protegeria suas costas esguias do frio com o som do meu peito. E calçaria os seus pés por trás como quem se conforta em chinelos. Você podia ficar, você podia voltar e nós não precisaríamos dizer um nada. Nem justificar, nem pedir desculpas. Só acalmar o medo um do outro de se perder na noite, de acordar sozinho, de nunca mais nos vermos de novo.

E eu diria coisas miúdas com palavras curtas saltando ao seu ouvido. E eu passaria os meus dedos por entre seus cabelos longos acalmando as ondas bravas dos seus pensamentos. Uma, duas, centenas de vezes, até que você dormisse. Até que você se acostumasse outra vez com a minha presença inquieta, com meus lábios que falam enquanto dormem, com minha cleptomania por cobertas, com minha necessidade infante de você.

E com a ponta do nariz, buscaria o seu cheiro que eu já perdi por aí, através dos anos. E eu continuaria juntando os tantos pedacinhos de você em mim. Como quem restaura um vitral, que mesmo partido em milhões de cores e cacos, jamais deixou de reluzir a fé. Assim também é o amor que te guardo. Quem sabe, dormindo comigo você volta a sonhar com um nós.

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Amanhecer

amanhecerOlhando os retratos que abotoavam as paredes da casa da minha avó, percebi que nas fotos mais antigas, não havia sorrisos expostos. Os rostos sérios, por vezes assustados, não faziam questão de transmitir nada além do que se sentia de fato naquele momento: certo incômodo diante da novidade, boa dose de desconfiança para com a geringonça que tentava roubá-los para um pedaço de papel.

Achei engraçado, depois pensei que não havia nada de estranho naquilo, estranho mesmo era abrir sorrisos incondicionais pra qualquer tipo de fotografia, para todas as horas do dia, como se fosse um balcão de padaria. Estranho era encostar nossos problemas de lado, nossas dores de canto em nome da selfie perfeita. Bizarro era vender uma felicidade constante que a gente nem tinha, mas parcelava em doze vezes, na fé de receber o produto depois. Estranho era mostrar dentes como quem sorria, com uma vontade danada de sair mordendo todo mundo.

Estar triste, ter problemas, ser assombrado por um dia ruim virou desvio grave de caráter. Roubaram a nossa melancolia, o nosso direito de chorar no box do banheiro por uma saudade antiga, de remoer os cartões que o ex já comprou escrito, mas assinou como quem diz que seu amor não cabe na tentativa das palavras. Levaram da gente nossa falta de assunto, nossa carranca matinal, nosso pé na jaca astrológico, nossas sextas-feiras treze azaradas e nos deram em troca sorrisos amarelos.

Sorrir conforta o todo, acalma as mães tão culpadas, cala os namorados, encerra as perguntas, muda o foco. Você não sorriu pra foto, está doente? Já pensou em ver um psiquiatra? Te indico o meu – diz sorrindo pra mim. Não, eu não eu acho que um mundo mais triste, choroso e reclamão é melhor. Deus me livre de gente baixo astral. Eu gosto de gente que ri, que celebra, que gesticula, desenhando as frases com os braços largos. Mas o gosto da felicidade quando ela é tão e somente verdade, não pode ser reproduzido em tons de amarelo-banana.

Cada perda, cada desvio da curva dos nossos sonhos, cada frustração deve ser bem organizada, negociada e finalizada dentro da gente. Quando a gente ignora, soterra com alegrias pré-moldadas, quando a gente para de dar colo pra nós mesmos, corremos o grande risco de olhar lá na frente pra todos aqueles sorrisos bonitos nas fotos e não nos reconhecermos. Se é pra sorrir que seja com o corpo inteiro, com a esquina dos olhos, com o coração diluído em todo o nosso ser. Se é pra ser amarelo, que seja do tom cintilante dos primeiros raios que venceram a noite para então se tornarem amanhecer.

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London

black and white old usa past amin peyrovi children 1200x847 wallpaper_wallpaperswa.com_1Caio não queria parar. Dançava suspenso no ar. Naquela noite, haviam combinado de abandonar tudo, como o dia abandona a claridade para ser descanso, como as flores que abandonam as pontas dos dedos dos galhos para ser perdão, como quem abandona as próprias dores para ser descaso, para ser qualquer outra coisa que não dor. Naquela noite, Caio abandonou a si mesmo.

Caio não queria insistir. Meu poeta preferido girava como quem tenta misturar por dentro os ingredientes da própria alma, bagunçar a calma que assusta quando enche o peito da gente de silêncios. Como quem tenta dançar com o calor dos próprios ombros, Caio girava. E em volta de si tentava encontrar a si mesmo. Na demência do tempo, na ilusão dos erros, ao amanhecer de seus medos. Caio, meu amigo, há mais de dez anos, queria esquecer só naquela noite que seu tempo para tornar-se inesquecível estava acabando. A gente vive uma vida inteira para ser lembrado.

Caio não queria sumir. Costurar-se com as árvores preguiçosas das manhãs no parque, ou às luzes histéricas da máquina de músicas que embalava o último sozinho do bar. Caio não queria fenecer, diluir-se entre as curvas dos amores noturnos, confundir-se com os prédios tristes da Vieira de Carvalho. Na noite em que abandonamos tudo, em que suspendemos a nossa dor de existir como quem suspende um balão no ar, naquela noite nós não éramos ninguém, mas éramos tudo. Um para o outro.

Caio não queria chorar. Seu choro podia lavar sua alma e apagá-lo aos poucos, como azul das casas ralenta com as lágrimas do entrudo. Então chorei eu. Pelos sonhos que nos foram tirados quando medidos, quando acordados, quando vendidos, inclusive por nós mesmos. Mas hão de abrirem-se também em mim sorrisos. Se teu objetivo em vida é ser eterno, Caio, tenha-lo por cumprido. Quem já viveu na sombra calma do amor de alguém, não pode jamais ser esquecido.

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A pessoa que mora por dentro

early_radioIsso não vai acabar bem…Esse empréstimo vai amarrar as suas pernas de um tal jeito que você não vai ter como fazer mais nada. Vê o que eu tô te dizendo – falou a mulher de cabelos tingidos de vermelho, abraçada à bolsa na fila do consultório. Primeiro pensei que ela tinha toda a razão. Depois me senti invadido. Minhas finanças expostas ali na espera do dentista. Só então me toquei que eu não tinha feito empréstimo nenhum. Aquela mulher, sentada à minha frente, não estava falando comigo. Estava era falando sozinha.

Doidinha toda, comentei comigo, passando o paninho no vitral do meu teto. E quem é você, mocinho, pra chamar a mulher de doida? Você tem conversas homéricas sozinho. Opa, opa, opa! Respeito é bom e todo mundo gosta. Sozinho não, comigo. Você tem conversas e mais conversas comigo – ajeitou a pessoinha que mora por dentro. E depois que foi morar no centro antigo, onde o barulho dos carros, das ambulâncias e dos assoalhos de madeira rangendo, ofendem os silêncios, só fez ficar pior. Ou melhor nisso – diagnosticou.

Quando moleque não tinha lá muita paciência pra ladainha curta dos outros miúdos. Correr, esconder, atirar, salvar o mundo com os meninos da rua, vá lá, era até divertido. Mas salvar meu mundo interior constantemente explodindo era uma tarefa solitária, como é a guerra diária de todo herói de gibi. Por falar em guerra, há dias em que a cabeça faz bico e fica de mal do coração, pobrecito. Quando é o coração que vira as costas e deixa o juízo falando sozinho, eu logo sei: ali na frente só mesmo as noites insones pra colocarem alguma ordem na gente.

Tem gente que tem medo. E eu entendo bem isso. Não dá pra exigir elegância da pessoinha que mora por dentro. Desbocada, ela não mede as palavras, canceriana com ascendência em escorpião, Narcisa Tamborindeguy na percussão. Essa figurinha se torna facilmente um metralhadora de realidades, sincericida inveterada, alma desalmada que fala por dentro. Ela está sempre pronta pra revelar toda a sua verdade, seja no programa mais polêmico da tarde, na espera do dentista, no desvio de um olhar. Melhor conversar, melhor passar por doido que enlouquecer. Melhor falar, cada vez que você fala consigo, tem uma chance a mais de verdadeiramente se escutar.

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Islândia

islVigiava a água da fervura pacientemente. Não havia nada melhor pra fazer que esperar. Esperar alguma vida brotar dali em pequenas bolhas, esperar que sua própria vida brotasse de algum lugar. Há duas semanas foi jantar com Eduardo, após um dia comum de mensagens carinhosas a cada oito horas, como pílulas de afeto. Fizeram o pedido do que comer, comentaram a decoração confusa e após o primeiro prato, ele disse que a amava, mas que a iria deixar.

Desde então, sua espera é esperar. Que faça sentido, para que ela também possa dar algum sentido para si. Não houve briga, desentendimento, seus dias tranquilos eram costurados com pequenos silêncios e depois declarações de amor, homeopáticas. Aos poucos, ela entendeu que nunca o entendeu, nunca o alcançou de verdade. Aquela era uma daquelas situações da vida que a gente não compreende, só espera que passe, como passam as tempestades maiores que nós.

De nada adiantava também perguntar. Ela até tentou. Tentou até que ele disse qualquer coisa, que não queria estar ali, em um relacionamento. Não fazia sentido. Há mesmo gente que consegue amar e desamar como quem se muda de país? Como quem embala tudo e parte para a Islândia? Ele também não respondeu. A gente só pode mesmo embalar os próprios sentimentos, com a paciência de quem embala uma criança. O que ele sentiu, foi só dele e jamais seu.

Parou de esperar que todos os sentimentos se resolvessem, se coisificassem, estéreis. Há sentimentos que não aceitam sentenças, não desejam serem repartidos entre os gostos amargos ou doces da língua. Há sentimentos que passeiam para não serem pertencidos. Que não se terminam, que são absorvidos, ainda que não nos absolvam de nossa culpa.

Vai ver que ele sempre tenha sido estrangeiro e você nem notou. Falando outro idioma, mantendo seus velhos hábitos, com saudade de uma casa que você jamais poderia ser. Vai ver que ele só voltou. Voltou-se pra si mesmo. Pior que gente que parte sem nós, é quem fica mas não está presente. Não dá pra explicar o que nem a gente entende. Aceite. Aceite tudo o que a vida sabiamente te dá.

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Fechar os Olhos

bampw-black-and-white-gossip-hat-old-old-photo-Favim.com-41089Dia desses, meu vizinho Túlio, machucadinho por um término recente, perguntou-me se eu nunca desisti do amor. Eu sei que ele esperava uma resposta mais madura de mim. Túlio sempre esperava o melhor dos outros. Mas a verdade é que respondi que sim. Contei para Túlio que eu desisti do amor, não uma, nem duas, mas todas as vezes em que fui ferido por ele, ou pela distância dele de mim.

-Quem não desistiu de mim foi ele, Túlio – fazendo-o rir, curtinho. – O amor confia em nossa fé quase infantil, de que o mal vai embora se a gente não olhar pra ele. Na primeira noite em que me senti verdadeiramente sozinho, pensei que jamais ia me sentir preenchido por dentro outra vez. Parecia que aquele buraco, aquela ausência côncava, misturadas com o meu choro estavam causando uma erosão interna. Drama, eu sei.

Naquela noite achei que ia morrer sem ar. Eu nem tinha dez anos direito, por isso fechei novamente os meus olhos. Quase vinte anos depois, descobri que há mais probabilidade de morrer atravessando a rua que de amor. Dado deprimente. Calma, Túlio. A dor não passa, quem passa é a gente, quase despercebidos. Cúmplice de todas as outras dores, amasiada a tudo que não foi dito, ela tenta se aproveitar de nossa aparente falta de fé no amor, para se acostar. Ela também não desiste de nós.

Mas o tempo, em troca dos tufos de cabelos, tem me trazido também certas novas certezas. Que não há razão para me sentir vazio com o espaço em branco no travesseiro ao lado, ou com as escovas de dente que se entreolham constrangidas, nem mesmo com as sandálias vesgas que ninguém vai corrigir ao pé do sofá pra mim. Sozinho, sim. Vazio, pera lá.

Quando o amado se esvai e a dor senta no peitoril, todo o espaço que parece se tornar cheio de vazio na verdade está preenchido dele, da fidelidade dele, da constância dele, da devoção do amor de permanecer em mim. Quando a gente não olha só pra fora, abre as vistas pra dentro de si, Túlio. Fecha os olhos um pouquinho que a dor passa pra bem longe e o amor passa outra vez por aí.

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Ter Razão

Old_timer_structural_worker2Há dez anos não via Edgard (a gente precisa dizer esse “d” no final ou ele fica antipático). Atravessei a cidade para passar duas horas com ele e Miguel, marido dele, durante uma conexão do voo que fariam de volta para Campo Grande. O amor adora essas pequenas exaltações. Estar realmente junto é uma dádiva em tempos sem tempo, em que o encontro não exige mais quase nenhum esforço. Não exige, mas adora.

Edgard continua com aquela mania adorável de acertar os óculos colocando o dedo indicador entre as lentes e empurrando devagarinho. Ali estava meu amigo, agachadinho atrás de um cacoete conhecido. Quando me lembro da gente, há uma década, não me veem à mente exatamente e somente boas lembranças. A gente brigava o tempo todo. Dois cabeças-duras, um par de corações moles.

Fiquei surpreso ao saber que ele e Miguel já estavam juntos há sete anos. Não parecia um casal de sete anos ali naquele grude, falando miudinho, olhando um pro outro em deleite. Parecia que tinham acabado de se cruzar na escada rolante: um subindo e outro descendo, quando se apaixonaram e decidiram seguir a mesma direção, para cima ou para baixo. Surpreendente. Quer dizer, é claro que eu acredito em todas as possibilidades do amor, mas precisamos admitir que as relações andam muito confusas. Amar nos dias de hoje virou um grande salve-se quem puder.

Chegando em casa, não aguentei, liguei. Edgard? Eu não vou dormir se você não me contar…sete anos?! – Ele riu e disse que sabia que eu iria ligar – Sabe, quando a gente embrulha os sentimentos com alma, não faz mais tanta questão de ter razão. Esse é o segredo: a razão pela qual tanto briguei, a razão que sempre fiz questão de ter, só apareceu mesmo quando ouvi aquela voz pela primeira vez, a voz do Miguel. Eu prefiro tê-lo a ser rei do meu orgulho. Eu prefiro ter-nos – Edgard conseguiu ali algo que perseguiu por mais de dez anos: me calar. Que a vida seja vivida para se ter razão, razão de ser, nessa jornada tão confusa de sentidos.

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